terça-feira, 4 de março de 2014

Manuel Ribeiro

Decorreu, no último fim de semana, mais uma edição do torneio de andebol feminino do concelho, o qual, desde o ano passado, tem o nome do Professor Manuel Ribeiro nele incluído, no que constitui uma forma de homenagear o "pai" do andebol em Esposende.
Manuel Ribeiro, bracarense de berço, e esposendense de coração, destacou-se no nosso concelho como o impulsionador de uma modalidade que, até então, não tinha qualquer expressão, mas que rapidamente veio a assumir particular preponderância.
Primeiro com o Esposende Bascontriz, agora com a Juventude do Mar, Esposende é, indiscutivelmente, uma referência no panorama andebolístico feminino nacional. 
A par do futebol e da canoagem, o andebol faz parte da "troika" das modalidades desportivas com mais relevo no concelho, e para isso muito contribuiu a dedicação e empenho de Manuel Ribeiro.
Manuel Ribeiro era também um fervoroso adepto do ABC, e, claro está, da Selecção Nacional de andebol, acompanhando sempre os campeonatos europeus e mundiais onde Portugal participava. Não deixava, aliás, de ser curioso, que sempre que as transmissões televisivas procuravam destacar algum adepto português, invariavelmente, lá aparecia o Professor trajado com as cores nacionais, a carregar a esperança e apoio lusos.

No ano passado, numa sessão de evocação e homenagem a Manuel Ribeiro levada a cabo, em boa hora, pela Câmara Municipal de Esposende, resultou o desejo de ser escrito um livro sobre a vida e obra do Professor Manuel Ribeiro.
Se há personalidade cuja vida dava um filme e, por maioria de razão, um livro, é Manuel Ribeiro.
Espero, sinceramente, que alguém possa tomar acção a partir da intenção deixada na sessão de evocação, pois Manuel Ribeiro foi uma personalidade carismática, que marcou gerações de esposendenses que com ele conviveram, e que merece ser dado a conhecer às gerações vindouras. 

Um exemplo, entre outros que prometo ir aqui contando, para ilustrar a figura especial que era Manuel Ribeiro.
Algures em Setembro de 2005, estava a campanha autárquica ao rubro [Manuel Ribeiro, nessas eleições, era candidato pela CDU, com um slogan muito sugestivo "Manuel Ribeiro a vereador do desporto"], quando numa manhã de sábado encontrei Manuel Ribeiro pelo Serra da Sorte a pôr a leitura dos títulos dos jornais em dia.
Já não nos víamos há algum tempo (tinha sido aluno de Manuel Ribeiro no 10.º ano), e colocámos, brevemente, a conversa em dia. Aproveitei para perguntar ao Professor como é que estava a correr a campanha, agora que a data das eleições se começava a aproximar.
Manuel Ribeiro respondeu-me que estava naquelas eleições para ajudar o seu partido de sempre, o qual passava por um mau bocado no concelho, e que com o seu contributo e notoriedade talvez conseguisse eleger, finalmente, alguém para a assembleia municipal, que era o principal objectivo. Mas, ao mesmo tempo, o Professor referiu-me que procurava também participar nas eleições em missão de serviço público, colocando a temática do desporto na agenda principal da discussão, sabendo-se do potencial do concelho naquela área. 
E, foi então, quando me disse "Queriam que eu falasse mal do Cepa na campanha, mas eu disse logo que não, que não podia fazer isso. Então o rapaz andou lá na escola quando eu era Professor, sempre foi impecável para comigo, sempre nos entendemos muito bem, nunca tive razões de queixa, e eu agora ia falar mal dele só porque sim? Nem pensar nisso. Eu quero fazer uma campanha pela positiva, chamar a atenção para a necessidade de investimento no desporto, sem ter de fazer ataques pessoais".
Uma campanha pela positiva. É, de facto, a principal impressão que retiro da campanha do Professor Manuel Ribeiro naquelas eleições, e que representou uma saudável pedrada no charco, usualmente pouco límpido, dos combates eleitorais. 
Uma lição de dedicação à causa pública, respeito pelos adversários e honestidade na intervenção política, que é exemplo e que nunca perde a sua actualidade.

sábado, 1 de março de 2014

Carnaval antecipado na Assembleia Municipal

O momento carnavalesco da última sessão da Assembleia Municipal de Esposende, que decorreu na passada quinta-feira, deu-se quando Manuel Carvoeiro, deputado municipal da CDU, questionou a atribuição, por parte da Câmara Municipal, de um subsídio de reintegração a João Cepa, no seguimento da sua cessação de funções enquanto presidente da Câmara.
O subsídio de reintegração, previsto durante vários anos no Estatuto dos Eleitos Locais, visava ajudar os autarcas no seu regresso à actividade profissional, após o exercício de cargos autárquicos. Em 2005, acabou por ser revogado, ficando, porém, salvaguardados os direitos adquiridos.
No final do ano passado, vários autarcas requereram este subsídio, tendo João Cepa, legitimamente, feito igual pedido
De notar que a nova redacção do Estatuto dos Eleitos Locais, contendo a cláusula de salvaguarda dos direitos adquiridos, mereceu a aprovação do...PCP, a par de outros partidos.
Causa, assim, particular estranheza o facto de Manuel Carvoeiro ter questionado a atribuição de um subsídio de reintegração cujos pressupostos foram, em devida altura, aprovados pelo partido a que pertence, e subsídio esse que, certamente, não terá deixado de ter sido requerido por camaradas seus, dado o assinalável número de autarcas jurássicos comunistas que entraram em "extinção" após as últimas eleições autárquicas.
Manuel Carvoeiro ao ter lançado a pedrada do subsídio de reintegração quis, naturalmente, causar escândalo e polémica, mas acabou por conseguir o efeito contrário ao desejado, atenta a manifesta falta de honestidade intelectual neste assunto.

Fevereiro em revista

«O desporto pelo desporto!», por Manuel Pereira
«Agora... A Cultura!!!», por João Felgueiras
«Acesso facilitado?», por Manuel Pereira
«Em 2017 eu votarei...», por João Paulo Torres
«Frases de 2014 (1)», por Francisco Melo
«Nas ruas de ninguém!», por Manuel Pereira
«Torres de "Temporal"», por João Felgueiras

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O desporto pelo desporto!

Eduardo Viana, comentador da Esposende Rádio, referiu-se à claque de apoio da Associação Desportiva de Esposende, os Lobos do Mar (Site Ultras Lobos do Mar), como um grupo de jovens “que se vendiam por uma cerveja e uma bifana”. E esta frase deixou-me muito alterado e, até posso mesmo dizer, chocado.

Como todos sabemos, a ADE por estes dias vive nos últimos lugares da tabela mas mesmo assim este grupo conseguiu formar-se e aumentar o seu número de elementos, mesmo sem o bálsamo dos resultados desportivos e sem apoios por parte da instituição em si que vive uma fase de sobrevivência apertada, e isto só aumenta o meu respeito por quem todos os domingos acorre ao Estádio Padre Sá Pereira em busca de nada e apenas por amor à camisola.
Mas esta frase é mais do que uma frase deslocada ou do que uma infeliz frase, e não querendo crucificar Eduardo Viana porque não é ele o culpado-mor, é uma forma de pensar instituída em diversas camadas da sociedade esposendense já que num concelho cheio de particularidades o desporto do concelho não é excepção, e passo a referir os dois grandes pontos que me levam a estas conclusões.
O 1º ponto é que não conheço mais nenhum concelho onde a gestão camarária tenha prejudicado a prática desportiva da sua cidade-sede como o de Esposende. As principais estruturas desportivas do concelho encontram-se fora de Esposende, com o Estádio Municipal a ser esquecido em sucessivos mandatos e a necessitar das verbas governamentais para ter obras de requalificação, enquanto as freguesias vizinhas viam-se dotadas de novas infra-estruturas, quer ao nível de centros de treino, quer ao nível de pavilhões, quer mesmo ao nível das atividades marítimas que se deslocaram de Esposende.  Pergunto-me como é que estas instituições e juntas de freguesias conseguem ter este fôlego financeiro para construir e manter estas infra-estruturas e que política é esta que permite a dispersão de infra-estruturas.
Claro que me vão dizer que o Estádio Municipal Padre Sá Pereira foi renovado, mas foram precisos diversos anos até que as obras se dessem no local onde a maior associação desportiva do concelho (em termos de pessoas) tinha a sua casa.  
As instituições esposendenses terem de recorrer aos pavilhões da escola secundária e do ciclo preparatório por não existir um pavilhão municipal na cidade-sede é algo do domínio da comédia!  
Mas quais instituições? E aqui chego ao meu 2º ponto, o estranho desaparecimento das associações em Esposende.  
O final da década dos 90’s trouxe um período negro para o associativismo desportivo em Esposende, onde grande parte das equipas desportivas de Esposende desapareceram: andebol, basquetebol, natação, judo, atletismo, canoagem, e o futebol ficou como a única atividade existente.  Mas tornou-se um período negro não pelas condições de vida do concelho mas pela degradação das expectativas e vontade das pessoas, e aqui incluo a minha geração, que ficaram desiludidos não só por um sentimento de revolta pelo não reconhecimento do esforço que haviam colocado nas suas equipas como um certo desencanto pelo desporto apenas pelo desporto, e como se as instituições locais fossem apenas uma fonte de chatices e de incómodos que apenas os que não conseguiam fazer o seu quotidiano nos centros urbanos vizinhos se refugiavam. Parece que os Esposendenses se acomodaram e perderam algum brio nas suas associações e deixaram que o centro das decisões fosse mudando.

Com isto não ponho em causa o mérito das vitórias das instituições do resto do concelho, sinto-as (e quando a nível nacional) como se fossem do meu bairro, casos do Paulo Rodrigues, do João Ribeiro, da Teresa Portela, do Tozé, etc, etc.
E é este sentimento que estes jovens vêm abanar, mostrando que em Esposende também as pessoas, e os jovens, se sabem organizar e multiplicar em atividades lúdicas e associações das mais diversas sensibilidades (fica aqui o comentário do meu companheiro de blog João Felgueiras sobre o teatro amador GATERC) e que estão dispostos a romper com a adoração dos velhos deuses.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Agora... A Cultura!!!

Nestes últimos ciclos políticos temos assistido, e bem, à requalificação, à construções de novas infra-estruturas, no fundo, a uma revitalização do concelho.
Muita coisa foi feita, muita ficou por fazer, muitas outras não foram tão bem feitas quanto, provavelmente, se desejaria. Temos agora zonas bastante aprazíveis, temos infra-estruturas do melhor que se vê por ai, temos muita construção (fogos habitacionais) mas temos falta de gente...

Já, aqui no blogue, foi relatada esta temática da falta de gente, da falta de capacidade para manter as gentes ligadas a terra que "os viu" nascer; vemos o caso do primeiro Esposendense pelo Mundo (aqui retratado), o João Eiras, que refere e bem a falta de capacidade do concelho de absorver "talentos", porque nos falta indústria, nos falta outro tipo de actividades.

Neste momento, tem-se vindo a assistir a uma outra dinâmica no campo cultural. Pela primeira vez, este ano parece existir alguma continuidade nos ciclos culturais, em que o "pontapé de saída" é dado, todos os anos, pelo GATERC (Grupo Amador de Teatro de Esposende e Rio Cávado). Este ano, mais uma vez, o GATERC proporcionou um ciclo de teatro com várias companhias amadoras convidadas e que nos brindaram com espectáculos de imensa qualidade. Todos sabemos as dificuldades pelas quais estes grupos amadores passam, e seria bom, que fossem apoiados, não só pelos órgãos autárquicos, mas também por mecenas.
Desde já, o meu aplauso para o GATERC e todos os que se dedicam à causa teatral, um muito bem hajam por lutarem contra todas as dificuldades e nos brindarem com estes espectáculos. Do meu lado, como não tenho jeito para representação, estarei sempre na plateia para vos apoiar.

Mas, o ciclo cultural "esvaziava-se" na altura do Inverno com esta iniciativa... Este ano, a coisa parece um pouco diferente, parece existir mais dinâmica, existem mais espectáculos e parece que a tendência é de continuidade.
Pude assistir a dois, ao concerto de tributo aos Beatles e ao lançamento do CD pelo Coro dos Pequenos Cantores, ambos com bastante audiência, sendo que o segundo encheu por completo o auditório Municipal, presenteando o público com um espectáculo de grande qualidade artística.
Relembro as palavras do Ex-Presidente da Câmara, João Cepa, quando disse no 19 de Agosto de 2013 que o Coro dos Pequenos Cantores talvez tenha sido a "obra" que mais o marcou. Certamente será, porque todos os edifícios serão efémeros, mas a cultura permanecerá por muitos e longos anos.

Vejo, também, uma dinâmica do público que se parece interessar mais pela oferta que lhe é dada, sendo que este tipo de eventos fazem com que a sua existência tenha um lado sócio-económico positivo, e provavelmente daqui a uns anos (assim espero), caso continue esta cadência, as pessoas olhem para Esposende não como um dormitório mas como uma cidade onde se possa viver e ter vários tipos de oferta, cultural, desportiva, etc.

Espero que assim continue, que a oferta, mesmo que não cresça em quantidade se mantenha na qualidade. O país precisa de recuperar da grave crise, mas esta crise é também uma crise de valores, uma crise cultural; se assim, "os agentes" culturais continuarem a actuar (principalmente a Câmara Municipal), certamente colheremos frutos futuros de grande qualidade.

Porque temos de educar, mas temos sobretudo de dar cultura à educação!!!


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Esposendenses pelo Mundo (1)

João Eiras, 29 anos, natural de Curvos, é engenheiro informático e vive em Oslo, Noruega, onde trabalha.

Em terra de vikings, fiordes e do bacalhau favorito de todos os portugueses, fomos falar com este jovem esposendense espalhado pelo mundo, e conhecer um pouco da sua história e das suas impressões sobre a Noruega e Portugal, nunca esquecendo, claro está, a terra que o viu nascer e crescer.

Imagem: João Eiras, Bergen

Há quanto tempo estás na Noruega?

Vim para a Noruega em Fevereiro de 2009. Entretanto, estive um ano entre 2010 e 2011 a viver em Lisboa também. Mas como a situação em Portugal azedou, decidi voltar para a Noruega em 2011.

Qual foi a primeira coisa que impressionou no novo país ao cabo dos primeiros dias?

Caíram 50 cms de neve no meio da cidade, nas semanas depois de ter chegado, e o país e a cidade continuaram a funcionar na normalidade.
Mal cheguei à empresa, reparei que o ambiente era muito informal. Cada um podia discutir qualquer tópico com o chefe de equipa ou até com o CEO. Algo impensável no meu primeiro emprego.
É tudo demasiado caro: uma refeição típica com prato sem bebida são 20€, bilhete diário para os transportes públicos 9€, renda de casa (T1, 40m2) 1.000€. Mas, em contrapartida, o salário líquido é 4 vezes o que recebia em Portugal.
Pouco trânsito na cidade. Os principais engarrafamentos acontecem nas vias rápidas à volta da cidade.

Aprender uma nova língua foi necessário, ou o inglês serve para tudo? 

A minha empresa é do ramo da tecnologia, e como temos que trabalhar diariamente com colegas de muitas nacionalidades, em diferentes escritórios espalhados pelo mundo, a língua de trabalho é o inglês. Este é o caso para a maior parte das empresas no ramo da engenharia e petróleo. 
Com inglês qualquer um se dá bem por cá. A maior parte dos Noruegueses até tem prazer em praticar o seu inglês. 
Mas para trabalhar noutros segmentos de mercado, tipicamente o empregador pede proficiência em norueguês.

Como definirias o teu «norueguês»?

Consigo ter uma conversa básica ou perceber o conteúdo dos jornais. 
Mas como no trabalho não se pratica muito, e apenas tenho duas horas de aulas por semana, este tem evoluído muito devagar.

Como é que caracterizas o típico «norueguês», desde o colega de trabalho passando pela pessoa que te atende num café, supermercado ou serviço público?

Falando puramente em estereótipos:
Há muito respeito e tolerância pelas diferenças culturais e sociais. Isto não é uma terra de senhor doutores. Aqui quem serve à mesa é tão respeitado como quem dirige uma empresa ou um político.
São pacíficos e menos emocionais do que o típico português. É um país muito pacífico, com baixíssimas taxas de criminalidade.
São bastante individualistas, não são muito dados a grandes confianças ou amizades mal conhecem uma pessoa.
São bastante emancipados e individualistas. É normal uma pessoa aqui com 18 anos ir viver sozinha ou com o/a companheiro/a, mesmo que seja um estudante sem rendimentos.
A dependência dos pais após os 18 anos é visto como um estigma.
Há traços de nacionalismo. Para um norueguês, algo estrangeiro é visto com alguma desconfiança (até ao ponto em que fica entranhado), enquanto que, por exemplo, na Suécia, algo estrangeiro (“usvensk”) é visto como exótico e interessante.
São pessoas muito competitivas no desporto.
Em Portugal, ser-se mãe-galinha é normal: estão sempre super preocupadas com que a criança não se suje ou apanhe frio. Aqui, estão -10C e estão as crianças todas no infantário ou no parque a atirar neve umas às outras. Noutras alturas, andam pelo parque, a trepar árvores, rastejar pela erva ou pelo chão, a ganhar imunidades… com as mães ao lado. Se a criança cair e se aleijar, não há problema. É assim que a criança aprende e conhece os seus limites.

Inverno na Noruega, primeiro estranha-se e depois entranha-se?

Para uns entranha-se, para outros repudia-se. 
Os noruegueses têm um ditado, repetido ad nauseum: “Det fines ikke dårlig vær, bare dårlig klær” ou seja “Não há mau tempo, há má roupa”. Para muitos isso é um modo de vida. 
Estejam -20C, chuva, vento, frio, sol ou calor, ao meio da tarde vê-se demasiada gente nos parques e na rua a fazer o seu jogging ou andar de bicicleta. 
No Inverno, altura da neve, vai-se ao ski. Para quem estranha o inverno, fazer desportos de inverno é a forma de se acomodar às condições. E apanhando o jeito, é algo muito divertido.

Como é que se ocupam os tempos livres na Noruega?

Com muito desporto. Os noruegueses são pessoas muito competitivas para as actividades do corpo. 
Ao contrário de Portugal, a maior parte do território norueguês é composto de manchas florestais sem limite à vista, e as cidades são limitadas por linhas verdes. Não há construção clandestina. Ou seja, o alpinismo, a canoagem, o acampar, o usufruto da natureza ou andar com o seu barco pessoal nos fiordes é algo grande por aqui. 
No Inverno, há os desportos de Inverno. Não é por acaso que a Noruega, sendo um país com apenas 5 milhões de habitantes, tem sempre um excelente desempenho nos Olímpicos de Inverno.
Em Portugal, o consumo de álcool faz parte do palato, e é algo que se faz moderadamente ao longo da semana. Na Noruega, o fim de semana é o campeonato dos tesourinhos deprimentes. Por vezes pode ser difícil encontrar alguém sóbrio depois da meia noite num sábado. 
Sair ao fim do dia e ir ao restaurante aqui é algo que não é comum. Talvez algo que a média das pessoas faça uma vez por mês.
Aqui não se vive para trabalhar. As pessoas tiram bastante tempo para si e para a sua família. A licença materna é mais de um ano a dividir entre ambos os progenitores.
A instrução média aqui é elevada. A maior parte das pessoas viaja, lê livros, educa-se.

Para além de Oslo, há mais algum lugar (ou lugares) da Noruega que conheças e tenhas gostado particularmente?

Visitei Bergen, a segunda maior cidade. Muito bonita. 
Fiz também um passeio pelos fiordes na costa oeste, a paisagem típica que se vê nos postais da Noruega. E claro no Inverno, ir para estâncias de ski.
Imagem: docas de Oslo

Quais são as principais diferenças que notas entre Portugal e a Noruega?

Há uma forte cultura democrática, muito mais do que em Portugal. 
Em Portugal, exige-se aos políticos do costume que resolvam os problemas que criaram. Na Noruega, há um maior envolvimento político e mais participação cívica. 
As pessoas são mais consequentes com as suas acções e por isso exploram menos os buracos no sistema. Daí que haja mais transparência e menos corrupção. Também há mais cultura do compromisso e menos cultura do conflito. O chico-espertismo português aqui é contraposto com muita ingenuidade.
As cidades são planeadas para os peões, não para os carros.
Há um grande respeito e usufruto da natureza. 
A mim incomoda-me que não haja um pedaço de bosque contínuo e de acesso publico na zona de Esposende e arredores em que possa fazer uma corrida ou andar de bicicleta uns 50 kms sem ver um edifício ou estrada de alcatrão ou paralelo. Para isso é preciso ir para o Gerês. 
Aqui na Noruega há a lei "allemannsrett" que diz que qualquer um se pode deslocar em qualquer pedaço de terra não desenvolvida sem pedir permissão prévia ao dono. 
Em Portugal há uma grande cultura de romaria, de gastronomia. 
Aqui o único dia verdadeiramente festivo é o 17 de Maio (o dia da constituição).
Como a Noruega até aos anos 60 era um país bastante pobre (começaram a exportar petróleo nos anos 70), não houve um influxo anterior de influências gastronómicas e produtos de outros países. Para além disso o clima não ajuda a explorar a terra muito bem. 
Vindo para cá, ou para a Suécia, vê-se claramente as diferenças étnicas. Pessoas em média mais altas, mais atléticas, cabelos loiros ou castanho claro, olhos azuis brilhantes, aspecto cuidado.

Bacalhau, Ronaldo e Mourinho: são apenas os únicos conhecimentos dos noruegueses de Portugal ou há algo mais para além disso?

Do que vejo, os noruegueses não são apegados ao futebol como os portugueses. Eles têm o campeonato nacional deles que decorre durante o verão. Por isso não é de estranhar que muitos não conheçam esses nomes. 
Todos eles já ouviram falar de “bacalao” (a versão espanhola) mas por cá ninguém come bacalhau seco e salgado (“klippfisk”). É todo para exportar. 
Talvez o que eles mais associam a Portugal são as praias, o sol a brilhar e, para muitos, as recordações ou histórias de visitas a Lisboa ou ao Porto. 
Quando eles pensam em imigrantes de países em crise, pensam principalmente em espanhois, gregos e italianos. Curiosamente os portugueses são melhor vistos que outras nacionalidades do sul da europa, talvez por serem mais desconhecidos.

Como é que se olha para Esposende a partir da Noruega?

Esposende, sendo uma cidade bastante pequena e pacata, para mim acaba por ser bastante semelhante com o ambiente em Oslo. 
Oslo tem 630 mil habitantes, que à escala das outras capitais europeias é muito pequeno.  Começando a frequentar determinados espaços, as pessoas tornam-se rapidamente reconhecíveis. 
A ligação que sentia em Esposende à natureza (ir à praia ou circular pelas zonas florestais), também a sinto cá. 
É muito fácil deslocar-me para o bosque nos arredores da cidade, e os parques com relva fresca abundam, onde tipicamente se vê demasiada gente a apanhar banhos de sol quando o tempo permite ou a fazer o seu piquenique. Mas as parecenças acabam aí. 
Embora Esposende seja a localidade de onde sou natural, não vejo que algum dia me dê as oportunidades profissionais que preciso. Embora os planos para ficar em Oslo não sejam definitivos, Esposende será muito provavelmente para mim apenas um ponto de passagem ou de descanso. 
Para mim, Oslo consegue combinar a tranquilidade dum sítio pacato, com o buliço duma cidade. Dá para ter os dois mundos perto um do outro.

À sua escala, que prática(s) ou medida (s) de bom que encontras na Noruega e que achas que poderia muito bem vir a ser aplicada em Esposende?

Lições específicas para Esposende, não vejo nada em específico. Comparando com as cidades norueguesas de dimensão semelhante, diria que Esposende tem muito mais a oferecer. 
Talvez gostasse de ver mais eventos desportivos abertos ao público em Esposende. São várias as corridas (e outros eventos) que se realizam em Oslo e arredores ao longo do ano. Mas, actualmente estou distante e por isso não sei até que ponto esta situação tem melhorado. 
Lições para o país inteiro, tiram-se sim. Poderia recordar os aspetos negativos já referidos na pergunta sobre as diferenças entre Portugal e a Noruega, em especial com a parte de não se fazer uma cidade para os carros.

Quem visitar a Noruega, que lugar e que prato não pode perder?

Comparado com Portugal, este país tem pouco para oferecer em termos de gastronomia. É bastante baseada em produtos de origem animal. 
As iguarias que se calhar podem ser interessantes são alguns enchidos e carne seca que se come pelo natal, hamburgers de rena ou alce, que se encontram nos mercados dos agricultores, ou claro, o salmão fumado. Não é por acaso que a Noruega é o país com o maior consumo de pizza congelada per capita
Indo para as cidades com tradição piscatória junto à costa ainda se encontram bons restaurantes de peixe e/ou marisco.
Comparando Portugal com o centro da Europa, principalmente a Bélgica, tenho que afirmar que demasiados portugueses não sabem o que é cerveja (por muito que elogiem a Super Bock ou a Sagres), da mesma forma que os nórdicos não sabem o que é vinho. 
Existem vários bares em Oslo com o seu próprio fabrico de cerveja, onde se pode encontrar de todo o tipo de variedades, cores e sabores.

Ao regressar a Esposende qual é aquele lugar a que apetece sempre voltar?

Não sou muito apegado à terra. Sou mais apegado às pessoas ou cultura. Visitar a família é sempre uma prioridade, mas se há algo que me dá bastante prazer é fazer as minhas corridas pelas freguesias à volta de Curvos, ou ir comer uma clarinha (ou duas). 
Claro, também tento tirar uns dias para visitar conhecidos ao Porto ou a Lisboa, ou aproveitar eventos que estejam a acontecer na altura, como festivais ou corridas.


Esposendenses pelo Mundo” é uma rubrica que pretende dar a conhecer os “esposendenses” espalhados pelos 4 cantos do mundo, partilhando as suas impressões sobre os novos lugares que habitam, os povos e culturas com quem convivem, e o seu olhar sobre a terra que os viu nascer e crescer.

Se conheces algum “esposendense” espalhado pelo mundo, ou se és tu próprio um “esposendense” espalhado pelo mundo, e gostasses de ver a sua/tua história aqui partilhada, escreve para largodospeixinhos@gmail.com, com indicação do nome, país e contacto de e-mail ou FB.  

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Estranho Caso de Custódia Magalhães

Não sei se João Cepa, caso não se tivesse desiludido com Passos Coelho e fartado da (des)atenção votada pelo PSD nacional a Esposende, tomaria a iniciativa de denunciar a «inexatidão profissional relevante» contida no despacho de nomeação de Custódia Magalhães para diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Grande Porto I - Santo Tirso/Trofa, nomeação essa que foi, então, vista por muitos como um caso flagrante de job for a boy (neste caso, for a girl). 

Mas sei que Benjamim Pereira, ao ter escolhido Custódia Magalhães para coordenar o recém-criado Gabinete de Apoio às Juntas de Freguesia  segundo decorre da excelente entrevista que João Cepa deu ao Jornal Notícias de Esposende, já aqui dissecada, e que não foi, até à data, desmentido pela Câmara Municipal –, cometeu um erro político que o contexto desaconselharia de todo e que não favorece a sua ainda breve carreira de presidente da Câmara Municipal de Esposende.

Estava o Verão de 2012 a dar os últimos suspiros, quando o país ficou perplexo com a nomeação de Custódia Magalhães para diretora executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Grande Porto I - Santo Tirso/Trofa.

Tudo porque, de acordo com a denúncia exposta por João Cepa, então presidente da Câmara Municipal de Esposende, o currículo atribuído a Custódia Magalhães apresentava «inexatidões profissionais consideradas relevantes», em particular aquela que dava conta do exercício de funções de Coordenadora da Divisão de Assuntos Jurídicos da Câmara Municipal de Esposende, entre 2004 a 2012, quando, segundo João Cepa, tal exercício ocorreu apenas «durante um curto período de tempo, tendo sido exonerada em 2008 por incompetência» e por «faltar demasiado ao serviço».

Na mesma denúncia, ficámos também a saber que Custódia Magalhães, nos últimos 4 anos, apresentara mais de 50 atestados médicos, estando ausente do serviço mais de 600 dias, o que levou João Cepa a concluir, ironicamente, que apresentava «o perfil adequado para dirigir um agrupamento de Centros de Saúde».

João Cepa indignou-se, o país indignou-se com ele, e Paulo Macedo viu-se forçado a voltar atrás na decisão de nomear Custódia Magalhães para tão prestigiante cargo.

Assentada a poeira do final de Verão de 2012, eis que Custódia Magalhães regressa, agora, à casa de partida. Lamentavelmente, a falta de explicações sobre a escolha feita e as razões que a motivaram, não permite obter o esclarecimento que se impõe, e que se deseja, sobre o porquê de alguém que foi exonerado «por incompetência» e «por faltar demasiado ao serviço», merecer, agora, a confiança e responsabilidade para coordenar tão prestigiante gabinete autárquico. 

Se Custódia Magalhães foi, realmente, vítima de animosidade política por parte de João Cepa, ou se as baixas médicas que apresentou foram perfeitamente justificáveis, sendo, portanto, infundadas as acusações de que faltou demasiado ao serviço, um comunicado esclarecedor da Câmara, e até mesmo da própria, restaurava a credibilidade do seu percurso profissional na Câmara e, por outro lado, cumpria o propósito de suportar a sua escolha.

Doutro modo, e na ausência de qualquer esclarecimento, subsistirá a dúvida sobre o que terá motivado Benjamim Pereira para dar um voto de confiança a quem o seu antecessor, anos antes, exonerara «por incompetência» e por «faltar demasiado ao serviço»...