domingo, 29 de junho de 2014

Antas e Forjães, o bloco nórdico!

  Desde sempre ouvimos nos diversos meios de comunicação social de Esposende as queixas (por vezes fundadas) dos representantes do poder local das freguesias a sul do rio Cávado a falarem da falta de investimento nas suas freguesias, mas hoje em dia considero que as freguesias que mais se podem queixar são as freguesias de Antas e Forjães, o verdadeiro bloco nórdico esposendense.
Começando por Forjães, as suas fronteiras com os concelhos de Barcelos e Viana do Castelo fazem com que seja uma plataforma de rotação natural com esses mesmos concelhos, quer a nível industrial quer a nível de serviços, podendo servir como uma mini-referência nas freguesias próximas como aglomeradora de indústrias.
 Se acham que isto parece algo demencial, reparem o que foi feito na zona industrial de São Romão do Neiva.  Foi instalada uma das maiores (senão a única) fábrica de armamento do centro e norte de Portugal, uma das maiores metalomecânicas do norte de Portugal, e uma pequena companhia de vedantes especiais japonesa, que transformou São Romão do Neiva na freguesia com mais emigrantes japoneses em Portugal  e onde está centralizada grande parte das representações da comunidade japonesa do norte de Portugal e Galiza (em alguns casos é de Portugal Continental), e a fábrica de resinas que já pertenceu à Eni (Agip), empresa italiana que comprou parte da Galp, e que fez das matrículas italianas uma normalidade naquela zona.  Dito assim até parece que é fácil, mas não é. Sei também que isto é possível devido ao facto de este ser um concelho de uma capital de distrito mas é esta dinâmica que temos de aproveitar em nosso proveito, e temos de perceber como alimentar estas empresas em termos de serviços e essa  proximidade é muito benéfica. Estando Forjães apetrechada de serviços que permitem manter uma população residente fixada, seria desejável que isto fosse colocado num plano de atração de pessoas.
 No bloco nórdico está também a menina dos meus olhos: São Paio de Antas, o gigante adormecido.
 Antas tem tudo para ser a capital do turismo do concelho de Esposende, já que é a única que consegue ter rio, mar, monte e campo.
 O rio Neiva continua a ser um parente muito pobre do rio Cávado e que pouca visibilidade tem nas atividades desportivas e recreativas no concelho de Esposende, tendo este condições naturais muito mais favoráveis para criar infra-estruturas de lazer e convívio nas suas margens, que se encontram desabitadas, de fácil acesso e uma proximidade com o rio que o rio Cávado não permite.  Sei que as praias não são as mais favoráveis para serem exploradas e que constantemente elas se tornam quase impraticáveis.  Os montes e campos que existem tornavam muito viável a existência de hotéis e turismo de habitação de capacidade média para que este destino pudesse ser vendido como um destino de fuga de fim-de-semana, ou mesmo de aventura se fossem criados trilhos para caminhadas. Podemos também pensar em fins-de-semana de caça.
 Quase despercebida é a zona industrial do Neiva, que se tornou uma zona industrial de uma forma quase autodidática e que serve quer para consumo concelhio e consumo do concelho vizinho. Esta zona mereceria ser fundida com a zona industrial de Forjães para criar um pólo industrial a norte do concelho. Seria fácil? Não, mas ter estes recursos espalhados é deitar esforço pela janela fora. O facto de ter um nó da A28 e de surgir antes de um pórtico surge como uma mais valia para atrair pessoas que aumentem a massa crítica de pessoas nesta freguesia. 
 Em termos de infraestruturas e de associações, Antas conta com instituições que em poucas freguesias vemos, tal como a Banda de Música de Antas que é a única no concelho e que traz muitos jovens de outros concelhos para Antas, o clube de caça e a Associação do Rio Neiva, algo que falta em Esposende.  Estas associações mereceriam mais consideração e mais apoio por parte do poder local porque são este tipo de associações que criam identidade, que criam um gosto, que fixam pessoas.
 Com isto não quero dizer que não veja potencial em mais freguesias, mas estas parecem-me os casos mais berrantes do nosso concelho.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Pensar local, agir global

Num mundo vincadamente global, em que a intervenção das empresas vai, muitas vezes, para além da área geográfica onde se inserem, as câmaras municipais podem ser um bom canal de facilitadores de negócios.
Embora tenhamos já a AICEP para promover o investimento em Portugal e a internacionalização das empresas portuguesas, nada impede que as câmaras, dentro das suas possibilidades e à escala de cada uma, possam igualmente (tentar) contribuir para uma dinamização da sua economia local além-fronteiras e, não menos importante, captar investimento externo.
As geminações são, a esse título, uma ideia interessante. Com efeito, a possibilidade de exportar as melhores práticas do concelho para fora pode constituir uma forma de criar oportunidades de negócios. Tentar, pelo menos, não custa.
Recentemente, estive em São Vicente (Cabo Verde), numa peregrinação familiar, a acompanhar o regresso do meu avô, com os seus pujantes 95 anos, às suas origens. Nos inesquecíveis dias aí passados, deparei-me com uma cidade muito procurada por turistas, mas sem um posto de turismo para prestar apoio aos forasteiros; com muitas pessoas a correrem ao final da tarde mas sem uma pista adequada para o efeito; com uma história importante, sobretudo durante a 2.ª Guerra Mundial mas sem saber como capitalizar isso a seu favor; e por aí fora.
Olho para o que falta em São Vicente, seja no plano das infraestruturas seja no plano turístico-cultural, e penso imediatamente em Esposende, em como soubemos actuar bem nessas áreas e como poderíamos, com esse capital de experiência, replicar as nossas melhores práticas noutros concelhos
Apesar das geminações actualmente existentes com as cidades de Ozoir-la-Ferrière (França) e São Domingos (Cabo Verde), dificilmente algum esposendense conseguirá responder sobre os impactos dessas parcerias, excepto tratarem-se de nomes de ruas na cidade. O que é bem revelador do trabalho que está (todo) por fazer nesse domínio. 
Nesse sentido, gostaria de lançar aqui algumas propostas para um tema que tarda a envolver a comunidade esposendense com a amplitude que merece, mas que permanece actual:

- criar, com urgência, um Gabinete de Apoio ao Investimento. Um gabinete de composição diversificada, supervisionado pelo Presidente da Câmara, e que seria responsável pela identificação de áreas e respectivas medidas para atrair investimento no Concelho, assim como para exportar para outros concelhos;
- lançar uma plataforma de "laboratório de ideias", onde a comunidade é convidada a lançar as suas propostas, para posterior análise e tratamento pelo referido Gabinete;
- convidar os municípios de Ozoir-la-Ferrière e São Domingos para as festas da cidade em Agosto, e promover reuniões para debater/identificar áreas de parceria;
- avaliar outros municípios (portugueses e/ou estrangeiros) com quem Esposende possa estabelecer geminações;
- sinalizar esposendenses nas comunidades espalhadas no Brasil, Alemanha, França, Suécia, etc., e que possam actuar como agentes nesses territórios tendo em vista identificar potenciais formas de actuação do concelho e das suas empresas, bem como, num fluxo inverso, captar investimento externo.

Volto ao início. Num mundo vincadamente global, a câmara de Esposende não pode deixar de aproveitar o domínio das geminações para (tentar) fomentar oportunidades de acção, bem como de aproveitar a sua comunidade espalhada pelo Mundo para serem interlocutores privilegiados junto de agentes económicos, culturais ou sociais e, a partir daí, tentar gerar também oportunidades de acção.

sábado, 14 de junho de 2014

Uma vida errante ?

  Todos o conhecemos, todos já o vimos nas ruas, no Modelo, na Marginal, na Rua Direita. Todos já conhecemos o seu espetáculo de rua, as suas roupas provocantes e desconcertantes, a sua língua destravada e propensão para se meter com quem passa e para responder num tom agressivo-sexual que faz dele as delícias de quem nos visita. Ele é o habitante mais conhecido de Esposende, com inúmeros vídeos na Internet e que representa Esposende no imaginário de muitas pessoas por Portugal fora e aqui falo por experiência própria.

 Falo do “Juju” de Gandra!
  Como declaração de interesses, digo que não sou um psiquiatra, psicólogo, ou que tenha alguma formação a nível medicinal nesses campos. Falo como “pessoa desta vida” e que já teve o prazer de conhecer diversas pessoas de diversas orientações a todos os níveis e que em nada se revêem neste tipo de atitudes e de comportamentos.
  Pessoalmente, acho que a sua postura não deriva de uma suposta homossexualidade e de um desejo de travestismo, orientações que penso que não lhe assistem, mas sim de uma necessidade de atenção e uma desequilíbrio psiquiátrico que se vêm avolumando de ano para ano.

 Quem o foi conhecendo nestes últimos anos sabe que o seu comportamento agressivo e belicoso tem vindo a aumentar, que as suas exibições públicas cada vez mais tendem a ser nos momentos de maior aglomerado de pessoas e que, para seu gáudio, resultam em inúmeros vídeos no Youtube. E, no entanto, a sociedade civil e pública continua a não prestar a atenção  a este caso, o que levanta-me algumas questões  que penso que são pertinentes.
  Como pode este caso passar em claro às autoridades responsáveis pela saúde pública?  Pelo comportamento agressivo crescente  que ele vem demonstrando, não estará na altura das autoridades conterem esta pessoa colocando-o em instituições de recuperação ou de saúde onde ele possa ser recuperado para o convívio em sociedade? Pessoalmente, defendo que deva ser avaliado psiquiatricamente e de seguida ser acompanhado em conformidade com o diagnóstico. Teremos de esperar que o seu comportamento se torne de tal forma agressiva que chegue a agressões físicas para se atuar?
 Podem dizer-me que ele deseja uma mudança de sexo, mas seria então desejável que fosse colocado em lista de espera para a tal operação e que fosse sujeito à avaliação psiquiátrica decorrente desse processo e pudesse definir o seu futuro.
 Mas se as autoridades públicas nada podem fazer, caberia à sociedade civil ajudar este elemento.
 Seria necessário o seu acompanhamento e enquadramento numa rotina normal e numa rotina de inclusão social para se desligar desta imagem auto-destrutiva e construída com o único intuito de chamar a atenção de quem passa, dar alguma vida a um elemento da nossa sociedade que necessita da nossa ajuda, dar um maior significado à sua pessoa enquanto cidadão.

 Sei que alguns me dirão que não tenho o direito  de conter esta pessoa só por achar que tem um comportamento diferente, mas se fosse uma outra qualquer pessoa a fazer o que ele faz, o que não se diria se nada fosse feito? O que se diria se outra qualquer pessoa no meio da rua insultasse quem passa? O que se diria se a GNR virasse as costas às queixas sobre outra qualquer pessoa como faz com ele? A liberdade dele acaba onde a nossa começa, e pelo pouco que percebo de leis de saúde pública e de ordem pública sei que pessoas com doenças contagiosas ou com doenças do foro psiquiátrico têm de ser contidas pelas autoridades competentes quer haja queixas ou não, é uma questão de saúde e de ordem pública e para o bem da comunidade, e este espetáculo decadente a que assistimos precisa de um fim. Sei que para ser internado teriam de existir diligências por parte da família, mas isso não é impeditivo de haver ajudas externas.
 Não o quero punir, nem o quero sacrificar, nem fazer dele um exemplo, apenas recuperar uma vida.
  Percebo que derivado dos anos de Estado Novo a sociedade portuguesa sobrevaloriza e sacraliza as liberdades individuais sobre a sociedade e o seu bem-estar mas recuso-me a viver numa sociedade que convive com uma bomba-relógio que sabe que vai explodir mas nada faz porque a bomba está no jardim do vizinho e não o pode invadir, mesmo quando a bomba vai destruir a rua inteira.
 O que não quero é um dia acordar e receber a notícia de que o “Juju” foi encontrado numa valeta  qualquer depois de ter sido espancado, ou algo pior, como já aconteceu no passado. Nesse dia a minha o dedo estará apontado às autoridades, às instituições e à sociedade civil por nada terem feito e por terem tido a oportunidade de evitar uma tragédia.
 Vamos todos esperar que o pior aconteça para nos lamentarmos? Vamos esperar que o mal chegue para ponderar-mos o que podia ter sido evitado? Espero que não.

Lembram-se do “Caso Gisela” ?

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Pe. Avelino em entrevista.

Uma grande vantagem do nosso "Largo do Peixinhos" é a ausência de "linha editorial"! E enquanto assim for, poderemos de forma descomprometida abordar tudo o que se faz, passa e diz respeito à nossa terra. 

Assim sendo, não poderia aqui deixar de dar nota do destaque da "Igreja Viva" desta semana, cuja capa é dedicada ao meu pároco, o Pe. Avelino Peres Filipe.

Apresentado como co-fundador do FC Marinhas, este ENORME ser humano (sim, eu sei que sou suspeito para tecer tal consideração) é, de um modo geral, um marco no associativismo da "comunidade" de Marinhas! E digo "comunidade" pois não obstante o carácter maioritariamente laico das instituições, todas elas contaram com o cunho de um pároco dinânimo, dialogante e colaborante que  ao seu jeito de ser sempre se empenhou em unir e aproximar os seus cidadãos e paroquianos.

Muito mais que um pároco, é um ser humano como poucos que conheci e sinto-me um privilegiado (e em bom rigor frequentemente "babado") por ter podido crescer com tão marcante "pastor".

Não me alongarei mais sob pena de este discurso de tornar todo ele um chorrilho de emoções.

Fica o link para leitura da entrevista: http://www.diocese-braga.pt/igreja_viva/89

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Caridade em Esposende

Sou contra a caridade.
Na minha opinião numa sociedade desenvolvida a caridade não existe, já que as instituições vindas da sociedade civil não devem tomar o lugar das instituições públicas/estatais no apoio às pessoas que têm maior carências.
A caridade sempre foi um apanágio das sociedades altamente desniveladas, que garante a subsistência dos mais pobres, sempre características de Estados pouco sociais, a caridade dá o peixe em vez de o ensinar a pescar.
Se não acreditam, basta recordar as declarações de Passos Coelho sobre esta temática quando disse que a retirada dos apoios sociais não era problemática porque essas pessoas poderiam pedir ajuda às instituições de caridade. Isto é mais tenebroso do que uma declaração de guerra.
Podemos discutir a diferença entre apoio social e caridade, e que tipos de caridade é que existem, mas isso seria outro artigo completo.
No último sábado decorreu uma iniciativa nas ruas centrais de Esposende que roçou uma cena de um filme de Fellini. Dispostas estavam diversas mesas com diversos produtos em especial produtos alimentares, que estavam expostos para serem levados pelas pessoas carenciadas que por lá passavam ou que queriam levar sem pagar nada.
Toda esta cena roçou o ridículo e o humilhante.
Se as pessoas querem dar os produtos e ajudar os mais necessitados deveriam ter uma lista de pessoas que necessitam dessa ajuda e um local próprio para as pessoas carenciadas se deslocarem e levantarem lá os produtos.
Colocar bancas com produtos grátis para serem levantados pelas pessoas carenciadas numa das mais movimentadas zonas de Esposende à frente de todos os que passam na rua é no mínimo rebaixante para quem tem de se deslocar a elas, a pobreza envergonhada é uma realidade, é um direito que assiste às pessoas.
A pobreza, a incapacidade de colocar comida na mesa é do domínio do privado das pessoas, não do domínio público. A pobreza, quando extrema, é um daqueles poucos assuntos que não se aligeira por se falar nele, ou que consiga ser desmistificado ou desconstruido com o tempo.
Que as pessoas o queiram fazer não me choca, mas este esforço deve ser concertado e deve ser feito com o máximo de respeito pelo bom nome e imagem de quem o recebe.

sábado, 31 de maio de 2014

Câmara dos Segredos

Muita preocupação devia ter a sociedade Esposendense!
Nos últimos anos temos vivido tempos de grande incerteza a nível nacional, mas também a nível local. 
É certo que a nível local tudo se mantém estável faz vários anos, que há uma política de continuidade e que muita coisa foi feita. No entanto há agora uma ruptura na forma como a comunicação é feita, causando a instabilidade.
Essa comunicação tem vindo a ser uma "montanha russa de emoções"; ora são as notas informativas camarárias que mais parecem a propaganda do partido, ora são as mesmas que aparecem desprovidas de conteúdo, sendo inócuas para quem as recebe. 
Há quem diga: "mais vale isto que não ter", pois eu acho precisamente o contrário. 
Já tive oportunidade, em sede própria, de chamar a atenção para este assunto. Vamos dar tempo ao tempo...

Mas a realidade é que neste momento, a Câmara parece a "Casa dos Segredos", em que revelar alguma coisa pode levar à expulsão; só falta mesmo uma "Teresa Guilherme" para apresentar tão grande "trapalhada". 
É que o segredo sobre como serão geridos os dinheiros da "coisa" pública, não é propriamente um segredo que agrade aos munícipes, ou, pelo menos não deveria ser. 
Acho fantástico que haja milhões de euros para aplicar e para "fazer obra", mas que ninguém saiba para quê e quando confrontado com estas questões, o nosso edil responda "vamos manter em segredo, o segredo é a alma do negócio". 
É claro que há detalhes que não se devem revelar, mas no seu conjunto, há que esclarecer os munícipes para onde é direccionado o dinheiro dos seus impostos, para que os mesmos se sintam esclarecidos e possam efectivamente fazer uma "democracia participativa".

Acho que já está ultrapassada a ideia que "o segredo é a alma do negócio", penso claramente que "a alma é o segredo do negócio".

A ver vamos se os segredos são revelados ou se levam a expulsão... Podem sempre revelar o que pretendem fazer sem entregar "o ouro ao bandido". Façam, mas façam bem...

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Esposendenses pelo Mundo (4)

Dário Ferreira de Jesus, 29 anos, natural de Fão, é biólogo e reside em Boston, Estados Unidos, onde trabalha na prestigiada universidade de Harvard.

Em terras do Tio Sam, na cidade onde residem os Boston Celtics e os New England Patriots, fomos falar com este jovem esposendense espalhado pelo mundo, e conhecer um pouco da sua história e das suas impressões sobre os Estados Unidos e Portugal, nunca esquecendo, claro está, a terra que o viu nascer e crescer.
Imagem: Dário Ferreira de Jesus, Los Angeles

Há quanto tempo vives nos Estados Unidos?

Estive aqui durante um ano, entre 2010 e 2011, a fazer a parte experimental do meu mestrado. Voltei para Portugal e depois, em Janeiro de 2013, regressei a Boston para o meu doutoramento.

Qual foi a primeira coisa que te impressionou em Boston ao cabo dos primeiros dias?

A primeira das primeiras foi a simpatia das pessoas mais velhas.
Para exemplificar basta falar das primeiras 2 horas do meu primeiro dia de trabalho, em que resolvi caminhar uns 40 minutos até ao meu Instituto e, como normalmente acontece, perdi-me. Mal tenho o mapa na mão e coloco os meus olhos no horizonte uma senhora, fazendo o seu “jogging” matinal, pára e imediatamente pega no seu “iphone” e pergunta-me para onde quero ir. Imediatamente a seguir, enquanto esperava para atravessar um cruzamento, uma senhora começa a falar comigo do jogo da última noite dos Boston Red Sox. 
E os exemplos continuam como as conversas de elevador e os pequenos diálogos quando vamos simplesmente buscar um café.

Quando pensamos na América, pensamos em “sonho americano” e “terra com oportunidades para todos”. Sentes que essa fama dos EUA mantém, nos dias de hoje, o seu proveito?

Eu cresci a ouvir histórias contadas pela minha mãe das façanhas do meu avô no período antes 25 de Abril. Histórias da clandestinidade, da distribuição de panfletos ilegais nas madrugadas do 1 de Maio, das fugas para Espanha e do contrabando e, como tal, os Estados Unidos chocam com muitos dos meus ideais, especialmente no que respeita ao direito à educação e saúde tendencialmente gratuitas.
Contudo, ainda não descobri outro país no Mundo em que a cultura do mérito esteja tão enraizada nas estruturas organizacionais públicas e privadas como neste. Aqui a cultura da “cunha” e dos cartões partidários é condenada e muito mal vista.
Portanto, através do trabalho pelo trabalho é possível a qualquer um progredir, fazendo com que o “sonho americano”, cunhado pelo James Truslow Adams, continue a ser uma realidade, ainda que sem a pujança de outras décadas.

Estás a trabalhar na Harvard Medical School, uma faculdade de excelência a nível mundial e bastante prestigiante, e que qualquer jovem estudante universitário associa como o topo das universidades. Como é que é ser investigador em Harvard?

O primeiro impulso leva-me a responder que ser investigador em Harvard é idêntico a ser investigador na UTAD, UP, UA ou em outras tantas Universidades Portuguesas, com a diferença de aqui existem todas as condições materiais e humanas para se realizar a melhor investigação do Mundo.
Numa resposta mais ponderada diria que ser investigador em Harvard é trabalhar num ambiente de competição desmedida, com um ritmo frenético, sem horário de saída nem descansos semanais. Pautado pela multiculturalidade e numa disciplina de “fishing” científico em contraste à ciência orientada para responder a hipóteses.

Estás neste momento a fazer o doutoramento, fazendo investigação na área da diabetes.

Sim, estou no programa doutoral da Universidade do Porto – GABBA mas a fazer a parte experimental nos EUA, e tecnicamente deverei terminar em 2015.
Estou envolvido em diferentes projectos mas o principal foca-se na forma como pais e mães diabéticos transmitem a predisposição para o desenvolvimento da doença aos seus filhos.
A diabetes está a crescer exponencialmente e Portugal, com uma prevalência de diabéticos diagnosticados a rondar os 7% e de não diagnosticados os 5%, não é excepção.
É uma doença complexa e de grande componente genética, contudo, na última década tem crescido o interesse em outra área – a epigenética. E a epigenética não estuda alterações dos genes (os blocos que constituem o nosso ADN) per se mas sim modificações químicas que esses genes sofrem e que alteram a forma como eles são expressos e transmitidos de geração em geração.

Portugal, é um desafio profissional a médio/longo prazo, ou as tuas expectativas profissionais passam por continuar nos EUA ou noutro país de forte tradição na tua área?

As oportunidades em Portugal são escassas e hoje em dia aqueles que as agarram são principalmente investigadores com um curriculum extraordinário, ou, felizmente cada vez em menor número, com um factor “C”. Portanto, preciso de enriquecer o meu CV e quero terminar o meu doutoramento nos EUA e de seguida realizar um pós-doutoramento num país europeu onde existam boas condições para se fazer ciência como Inglaterra, Alemanha, Suíça ou Suécia, com o objectivo final de devolver ao meu país o investimento que ele fez na minha educação a médio/longo prazo.

Quais são as principais diferenças que notas entre Portugal e os Estados Unidos?

As diferenças são muitas e é um exercício bem complicado referi-las.
Contudo, a diferença que salientaria é o patriotismo. É certo que o patriotismo é uma coisa desmedida neste país e exemplo disso é o facto de, muito provavelmente, se cantar o hino antes de um jogo de berlinde, mas gostava de ver Portugal um pouco mais patriótico e com confiança em si. Quem vai alguma vez esquecer aquele ambiente que se viveu no Euro 2004? Acho saudável.
Imagem: Baixa de Boston

Como é que caracterizas o típico “americano”?

O típico americano tem 3 a 5 filhos, uma casa com jardim, dois carros e com isto tudo 3 empréstimos ao banco para pagar. 
O carro da mulher é familiar e o dele é um toyota. O homem trabalha, a mulher fica em casa. O americano fala alto em público, ri-se de coisas que não têm piada e é convencido de que sabe.
O americano nascido cá olha para os estrangeiros com desconfiança, usa meia branca, no Inverno usa coisas da “North Face” e no verão usa uns calções apertados às cores e sapatos de “bela” (para vos facilitar a imagem, pensem no “menino tonecas”). Quanto a elas, bom, elas simplesmente usam “leggings” pretas “push-up” no Verão ou Inverno e são umas histéricas quando conversam umas com as outras.
Em transportes públicos estão todos com os “smartphones” nas mãos e de lá não tiram os olhos. 
O típico americano só come comida que não é americana e passa a vida em bares desportivos a ver todo o tipo de desportos com uma cerveja local na mão
Por fim, dentro de cada americano vive uma tia nossa, uma daquelas que não se cala e conta coisas de que não nos interessa para nada e a quem nós vamos acenando a cabeça.

Ainda há muitos americanos a confundir Portugal com uma região de Espanha?

Sim, há bastantes americanos que não fazem a mínima ideia de onde fica Portugal. Mas isso até não acontece muito em Boston. Com efeito, Boston possui mais de 50 Instituições de ensino superior e, como tal, a sua população é, na generalidade, bem instruída. 
O mais comum é os americanos saberem que Portugal é um país europeu soberano, mas têm bastantes dúvidas em relação à nossa língua. Alguns pensam que é espanhol. E o mais frequente é não saberem a magnitude dos falantes de língua Portuguesa, uma vez que muitos pensam que os brasileiros falam espanhol. Mas não os condeno. Os Portugueses sabem o nome de todos os 50 estados Americanos ou a sua localização? Só para atravessar os EUA de costa a costa são 6 horas de avião.

Já tiveste oportunidade de fazer a famosa viagem de carro “costa a costa”? Alguma viagem que tenhas feito nos EUA e gostado particularmente?

Ainda não tive tempo, mas será realizada.
A coisa mais parecida a isso foi ter voado com amigos para San Diego e depois seguido de carro para Los Angeles, Las Vegas e, por fim, San Francisco, ao longo de duas semanas.

Como vês Esposende a partir de Boston?

Uma cidade pequena e calma com o necessário para viver, criar família e trabalhar nas cidades maiores das redondezas. Gostei de ver o investimento na marginal e tenho a sensação de cada vez que volto a Esposende ver mais gente a praticar actividades ao ar livre.
  
Que medida prática/funcional aí existente achas que poderia muito bem vir a ser aplicada em Esposende?

Embora a anos-luz de muitos países nórdicos, Boston tem investido em ciclovias e muita gente utiliza a bicicleta como veículo de transporte, incluindo eu, portanto as ciclovias deveriam ser alargadas à maioria das freguesias do concelho de Esposende. E por fim, de uma vez por todas, devia-se andar com o Parque da cidade para a frente.

Quem visita Boston, que lugar e que prato não pode perder?

Qualquer pessoa que aprecie minimamente o Outono devia ter a possibilidade de passar um final de tarde no “Boston Common”. Eternizado no filme o Bom Rebelde (“Good Will Hunting”) é um parque absolutamente grandioso. Quem visita Boston não pode perder um “Clam chowder” – uma sopa de ameijoas característica de Boston.
Imagem: Boston Common

Para além da família e amigos, o que sentes mais saudades de Esposende?

Estranho provavelmente para muitos, aqueles de quem mais senti falta sempre foram os meus cães. Tentei tantas vezes…mas nunca consegui falar com eles, mas entendíamo-nos bem de qualquer forma. Às vezes tenho mais dificuldades em conseguir perceber alguns investigadores em Harvard e não é um problema linguístico.
Tenho uma saudade danada dos Verões em Fão e das noites do Pacha. E por fim, o pôr-do-sol de Ofir.

Ao voltar a Esposende qual o lugar que te apetece sempre voltar?

Naturalmente, à restinga de Ofir.


Esposendenses pelo Mundo” é uma rubrica que pretende dar a conhecer os “esposendenses” espalhados pelos 4 cantos do mundo, partilhando as suas impressões sobre os novos lugares que habitam, os povos e culturas com quem convivem, e o seu olhar sobre a terra que os viu nascer e crescer.
Se conheces algum “esposendense” espalhado pelo mundo, ou se és tu próprio um “esposendense” espalhado pelo mundo, e gostasses de ver a sua/tua história aqui partilhada, escreve para largodospeixinhos@gmail.com, com indicação do nome, país e contacto de e-mail ou FB.