sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Andar por aí

15 de Junho de 2013

João Cepa, no discurso de apoio à candidatura de Benjamim Pereira a presidente da Câmara de Esposende:

«Havia alguém que dizia que ia andar por aí. Eu não vou andar por aí. Eu vou estar sossegado no meu canto, tentar compensar a família e os amigos de anos de ausência.».

12 de Dezembro de 2014

Criado o blogue «Esposende: Andar por aí...» da autoria de...João Cepa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

João Cepa anda por aí...

É das normas do comentário político, desportivo, culinário, ou de outra coisa qualquer, que não se comentem os comentadores, mas alguns comentadores, devido ao seu passado e ao envolvimento com aquilo que comentam, merecem ser comentados e criticados pelos seus comentários.

Falo do comentário de João Cepa aquando da saída da “Esposende em Revista” no seu blogue.
João Cepa enaltece o seu passado e ajusta contas com o seu sucessor, fazendo os possíveis para esvaziar o mandato de Benjamim Pereira de sentido, conteúdo ou profundidade até ao presente dia. 

Acompanho algumas das críticas a Benjamim Pereira no que diz respeito a alguma inépcia do actual executivo, mas João Cepa não pode e nem deve criticar Benjamim Pereira porque ele próprio é o maior responsável pela dinâmica e pelo executivo que deixou como legado a Benjamim Pereira.
João Cepa não é igual aos outros, não é um anónimo cidadão, um ilustre desconhecido, um calmo pagador de impostos. João Cepa geriu a Câmara Municipal durante 3 mandatos e isso impõe-lhe um período de silêncio, um período de “nojo” da vida pública e de comentar o seu sucessor.

João Cepa não pode ser o “presidente”, como muitos ainda lhe gostam de chamar, apenas para receber medalhas de honra, louvores, menções nos jornais, artigos no jornal, artigos nos blogues e depois ser apenas mais um entre a multidão. Existem certos lugares cuja responsabilidade não acaba no dia em que os deixamos mas nos acompanham por muitos e longos anos e ser autarca é uma delas. 

Alguém vê Rui Rio a falar sobre Rui Moreira, Mesquita Machado sobre Ricardo Rio, Carmona sobre António Costa, ou viu Luís Lamela a falar de José Felgueiras, ou José Felgueiras a falar sobre Aurélio Neiva?  
O que é que ele traz de valor, de novo, de frutífero quando diz que tudo o que existe hoje foi obra dele? O que traz de novo quando diz que vieram cá umas pessoas supostamente importantes? Além de ser um comentário mesquinho relembra-me que ninguém sequer supostamente importante esteve cá durante o mandato João Cepa. 
Será que João Cepa nos seus primeiros anos não recebeu projectos em andamento e que já tinham sido adjudicados por Alberto Figueiredo e que lhe deram o “fazer obra” a que ele se refere?
E por falar em Alberto Figueiredo, voltemos por momentos a 1998, quando João Cepa assume o seu mandato em Maio devido às diversas suspensões de mandato de Alberto Figueiredo atenta a sua vontade de ir para a Assembleia da República. Pensa João Cepa que o seu antecessor não teria muito para dizer acerca do seu sucessor? Estamos a falar do homem que inaugurou as Piscinas Municipais, o parque radical, fez a marina de recreio, lançou as bases para a reformulação da Marginal, fez a Biblioteca Municipal, inaugurou o novo Ciclo Preparatório, entre outros. Nem com mais 15 anos de mandato João Cepa faria metade disto, então porque critica ele Benjamim Pereira?

Pensa João Cepa que não haveria órgãos de comunicação interessados em crónicas de Alberto Figueiredo? Sei bem que nessa altura a Câmara estava sobre auditoria do IGAT e mais tarde surgiu a carta de Cruz Novo no “Voz das Marinhas” a referir-se a casos de corrupção no licenciamento de obras e isto fez com que a sua imagem pública estivesse danificada mas mesmo assim, seremos ingénuos a pensar que não seria uma opinião válida e que levantaria algum interesse?
E depois temos o “Fazer” e  “Aparecer”.
João Cepa, continuamente, gaba-se da situação financeira em que deixou a Câmara Municipal, que acredito que seja verdade, e sei que uma autarquia com défices excessivos leva a um inevitável aumento de impostos, mas o que me importa como cidadão que a Câmara tenha 2 milhões no banco e isto tudo seja um “jardim bem tratado” se os licenciados continuam a migrar para o Porto, Braga e Lisboa para terem emprego?  O que interessa os 2 milhões quando as empresas não se fixam no concelho? O que interessa os 2 milhões quando o concelho se torna um deserto durante 5 dias por semana, 11 meses por ano? Até poderia ter 100 milhões, mas o que me importa se tudo vive estagnado? Se tivéssemos mais pessoas, mais empregos, mais impostos talvez houvesse mais dinheiro para “fazer obra”, se tivéssemos zonas industriais verdadeiras e não “zonas dos chineses” talvez pudéssemos “fazer obra”, e se tivéssemos mais dinheiro ganho desta talvez hoje precisássemos menos de “Aparecer”. 
Se ele privilegia tanto o rigor financeiro, e se gaba dele, porque critica quem não quer gastar mais do que tem ou se quer restringir ao que lhe está garantido por outras vias de financiamento? 
Se João Cepa ainda não percebeu que neste momento a grande saída em termos económicos do concelho é “aparecer” e ir se mostrando cada vez mais, tendo que ir buscar cada vez mais publicidade para si, quer em termos de turismo, quer em termos de indústria, é porque ainda não percebeu muita coisa, mas algo me diz que ele percebe bem melhor do que eu esta questão.
Concordo que é necessário separar o que é informação, propaganda e publicidade. Concordo que os constantes boletins noticiosos devem ser o mais laicos possíveis, resistindo à tentação de vender a imagem do presidente em todas as inaugurações, e que ter uma estrutura de marketing tão pesada na Câmara seja errada, mas João Cepa já se deve ter esquecido dos boletins de campanha encobertos que eram as edições do Farol de Esposende,  das centenas de fotos dele numa sala de uma instituição a inaugurar obras de requalificação que foram publicadas.  

E quando fala da desvalorização do passado, gostava que me mostrassem evidências da velha máxima política que diz que “os primeiros 6 meses culpas o antecessor e nos 6 meses seguintes mostras o que fizeste”, de como Benjamim Pereira maldisse João Cepa.
E por falar em feira de vaidades, João Cepa com certeza já se esqueceu do passeio dos idosos a Fátima em 2013 quando gastou quase 6000€ da Câmara em terços e mais 16.000€ em transportes no referido passeio em plena campanha eleitoral, um cómico final para o seu mandato.
Nada tenho contra João Cepa, como todos os autarcas fez coisas boas e coisas más, mas ser ex-autarca não lhe concede o lugar de “voz da consciência” de Esposende, nem lhe concede o lugar de senador do concelho que vive acima das críticas dos outros e por mais que escreva que não é candidato a nada e não quer protagonismo nada o contradiz mais do que as suas acções e fica a certeza de quanto mais ele falar do seu sucessor mais eu me lembrarei do que foram os seus 15 anos à frente do concelho e aí teremos muito para falar, e nem sempre pelas melhores razões.
O poder autárquico é como o avião, quando se perde nunca mais volta e se mesmo assim o quisermos apanhar é só para fazermos figuras tristes.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Revista à "Esposende em Revista"

Na manhã de hoje penso que todos fomos surpreendidos pela distribuição em massa da “Esposende em Revista”, publicação de caráter informativo da Câmara Municipal de Esposende.
Sendo um dos críticos das redes sociais e dos efeitos nefastos que provocaram no debate público dos mais diversos temas em Portugal, sou também daqueles que acha que as instituições, de todas as diversas proveniências, devem ter meios de comunicação e veículos de divulgação próprios para evitar deixar à deriva o impacto das suas atividades e propósitos.
Percebo, e não refuto, o propósito e a finalidade da “Esposende em Revista” em informar o que de principal foi feito em Esposende neste 1º ano de mandato. É importante que o Município dê a conhecer o que faz e que consiga assim fazer despoletar novas ideias, projetos e vontades para avançarmos mais nos diversos domínios onde ainda temos de evoluir, mas podemos sempre melhorar. Penso que falta a Esposende uma publicação de referência sobre o que se passa no concelho e este tipo de publicações podem colmatar algumas lacunas nesses campos.
Falta claramente um espaço de contraditório nesta revista, devendo ter sido dado espaço, pelo menos, aos vereadores da oposição na Câmara Municipal para expressarem as suas opiniões e visões do concelho e do que foi feito neste 1º ano. 
Poderia também ser incluído um espaço de opinião para os presidentes das juntas de freguesias do concelho para expressarem suas ambições, expetativas e projetos para as suas freguesias.
E, como apontamento final, gostava de alertar para quem edita esta revista que na próxima edição não colocassem nenhuma data, já que receber uma revista com data de Outubro de 2014 em Janeiro de 2015 faz parecer que não tinham mais o que fazer às revistas e distribuíram-nas.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Multivisões de Esposende

Antes de mais, faço já a minha declaração de interesses dizendo que nada tenho contra a marca em questão, nem que tenho algum interesse nesta área de negócios.

Como muitos já devem ter verificado, recentemente foi inaugurada uma nova loja na Rua Direita da rede Multiópticas e um posto de abastecimento da Prio nas antigas instalações da Cipol na EN13. Não tenho nenhum problema com a abertura destas lojas já que, acima de tudo, vieram ocupar instalações que estavam quase ao abandono, no caso da bomba de gasolina, e outro que se poderia arrastar por demasiado tempo no centro da cidade mas as suas aberturas, na minha qualidade de comum cidadão, levantam-me algumas interrogações a dois níveis.
A primeira questão é a sustentabilidade destes negócios.
Sei que me dirão que o natural correr do negócio se encarregará de mostrar se estes estabelecimentos têm clientela ou se ainda têm mercado para se manterem e crescerem, mas tenho a percepção que oculistas e ópticas em Esposende já existem em bom número e só à custa das lojas já existentes é que poderá crescer, o que com a máquina de publicidade que a Multiópticas tem e a capacidade de resposta em termos de variedade e de preços dos seus produtos faz com que o futuro dos lojistas já existentes seja cinzento.
No caso da gasolineira, o meu espanto não é tão grande, já que grande parte dos seus concorrentes estão na zona Esposende/Gandra e naquela parte do concelho existiam poucos postos de abastecimento mas com a abertura do posto da Repsol e a renovação do posto da Galp, parece-me que a sua sobrevivência se vai basear nos preços baixos praticados pela Prio e que vai afetar todos os outros concorrentes.

A segunda questão que eles me levantam é o ordenamento urbanístico em termos de comércio.
Não espero que Esposende seja diferente do restante país. Andando pelas ruas de Portugal é fácil reparar que hoje em dia o número de lojas encerradas é muito maior do que há 4 anos atrás e que as zonas comerciais estão votadas ao abandono mas é nestas alturas que é preciso reorganização. 
Andando pelas ruas de Esposende é fácil perceber que existem muitas lojas abandonadas, principalmente  no seu centro e zona sul. 
As galerias comerciais Rodrigues Sampaio, a Praça Dom Frei Bartolomeu Dias e as ruas adjacentes, e quase todas as ruas da zona Sul que têm acesso ao Bairro Social e ao Cemitério, são um bom exemplo disso.
Se não existe nenhum paternalismo da minha parte para com a marca “Nélia”, sei também que seria necessário e desejável que os espaços comerciais na Rua Direita e Largo Rodrigues Sampaio sofressem alguma diversificação e esses espaços não se tornassem espaços-fantasmas a partir das 18:00.
Seria importante e desejável que existissem locais que levassem pessoas e vida a estes locais e que não fossem apenas centros de negócios. Se Esposende quiser ser uma cidade de turismo e agradável a quem nos visita é importante que as nossas principais ruas possam ter vida. 
Alguns dir-me-ão que as lojas também são um atrativo, e eu responderei “Certamente”, mas esse cenário ainda é algo longe, já que seria necessário que o turismo que nos visita sofresse uma mutação em termos de capacidade financeira dos mesmos. Conheço uma vila muito simpática na  Suiça que faz das lojas na rua principal uma atração, mas ainda não chegamos a esse nível, tenho pena.
É necessário perceber por parte das diversas entidades se a forma como estão distribuídas as licenças para comércio e que licenças estão a ser atribuídas neste momento. Confesso aqui a minha ignorância neste campo, mas se podemos limitar a hora de abertura dos espaços noturnos e a própria abertura destes certamente, poderemos fazer este rastreio e a orientação dos mesmos.
Como habitante faz-me confusão que haja apenas 1 local para comprar o jornal em toda a zona sul (e é junto à rotunda da Solidal) enquanto se tropeça em cafés a cada 100 metros e que quase não existam escritórios apesar de haver edifícios com lojas que nunca as viram ocupadas.
Mas para fazer este tipo de alterações é necessário fornecer algumas infraestruturas, tal como estacionamento, serviços de apoio, facilidades em alteração de desenho das lojas e de arquitetura. Não podemos esperar que se abram lojas em locais com dificuldades de estacionamento e passeios reduzidos. As mesmas facilidades que foram dadas a quem se instalou na Zona Industrial  e que permitiu que diversos negócios se lá instalassem que poderiam estar na cidade e que intensificaram ainda mais a desertificação no comércio.
Como já  escrevi muitas vezes neste blogue, é altura de tomarmos nas nossas mãos a nossa cidade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ganhar o Futuro*

Longe vão os tempos em que a Associação Desportiva de Esposende (ADE) batia-se contra históricos do futebol português, que hoje militam na 1.ª Liga, como Académica e Belenenses. Ou em que a presença no Jamor esteve à mísera distância de 90 minutos. 
Foram anos breves mas intensos, em que o clube ganhou uma projeção como nunca dantes vista, e a cidade animava-se, quinzenalmente, com a presença de dezenas de forasteiros que vinham apoiar a sua equipa.
Após a sua segunda participação na 2.ª Liga (1999/2000), a ADE entrou numa espiral descendente, com sucessivas despromoções, encontrando-se, atualmente, a disputar a Série A da Divisão de Honra da Associação de Futebol de Braga, onde também se encontram Forjães e Vila Chã.
Jogando em escalões competitivos modestos, a ADE foi perdendo algum do seu protagonismo para outras equipas do concelho e muitos foram os sócios e adeptos que, progressivamente, afastaram-se, deixando de acompanhar e participar na vida desportiva do clube.
Mergulhada nas profundezas do futebol português e votada ao esquecimento, a ADE arriscava a retirar-se da vida desportiva ativa de forma inglória.
Costuma dizer-se que os verdadeiros amigos revelam-se nas horas más e, felizmente para a ADE, que um bom punhado de sócios do clube atravessou-se no período mais crítico e conturbado da história da associação, para reerguê-la dos escombros resultantes da queda livre desde a 2.ª Liga.
No estádio Pe. Sá Pereira, as centenas de sócios e adeptos que preenchiam, quinzenalmente, o estádio, deram lugar a poucos, mas bastante valorosos, apoiantes que continuam a incentivar a sua equipa de sempre, como sempre, jogue esta contra o Belenenses ou contra o Viatodos. 
Alberto Bermudes, presidente da Assembleia-Geral, tem sido um autêntico número “10” da instituição, baluarte na composição e estabilidade dos órgãos sociais do clube, contribuindo, de forma decisiva, para a restauração da credibilidade da ADE. É também conhecido o apoio financeiro que presta, e de que não faz qualquer publicidade, a algumas iniciativas do clube, em particular das suas escolinhas. Sem o seu envolvimento, teria sido muito mais complicado para a ADE dobrar o cabo das tormentas em que se envolveu, como muitos outros clubes de futebol a norte, depois de anos desafogados, vivendo acima das possibilidades. 
No último domingo teve lugar o jantar de Natal da ADE, evento que contou com a participação de quase 300 pessoas, incluindo atletas de todos os escalões competitivos em que o clube está inserido, técnicos, pais e familiares de atletas, dirigentes, patrocinadores e alguns autarcas.
Foi especial ver os últimos presidentes do clube, Carlos Barros, José Magalhães, Ricardo Cruz e José Rego participarem no encontro. Também aí a ADE começa a fazer a diferença na sua própria história, com os seus últimos principais dirigentes a não renegarem o clube, nem a desaparecerem do estádio Pe. Sá Pereira.
Como referia o vereador Rui Pereira na sua intervenção durante o jantar, nos últimos tempos vai-se assistindo, nas iniciativas sociais levadas a cabo pela ADE, a um número cada vez maior de participantes, no que representa um importante sinal de vitalidade da instituição e de esperança quanto a um futuro mais promissor da associação desportiva mais emblemática do concelho. Foram palavras importantes e significativas, que ecoaram pelas dezenas de mesas, e que animam todos os que se relacionam na vida do clube a dedicarem-se ainda com maior empenho.
Ganhar o futuro. Assim se apresenta o desafio da ADE. Apesar das dificuldades financeiras e da grande concorrência promovida por clubes vizinhos na captação de atletas, a ADE percorre o seu caminho, de forma consciente, sem ceder à tentação de entrar em novas loucuras.
João Ferreira, atual presidente do clube, conhecido pelo rigor orçamental e disciplina financeira, tem encetado, juntamente com a sua equipa diretiva, um importante trabalho nessas vertentes, não descurando, todavia, a componente desportiva do clube, em particular a formação mais jovem.
Não sei se a ADE voltará a parar a cidade por causa de um jogo de futebol nos próximos 5 ou 10 anos. Sei, no entanto, que a participação entusiasta e numerosa registada no seu jantar de Natal confirma a velha máxima de Mark Twain, no caso readaptada: a notícia da morte da ADE foi, manifestamente, exagerada.

*Publicado no Jornal Notícias de Esposende, n.º 50/2014, 13 de Dezembro  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O Quirguizistão é já ali...

As mãos de um homem contam a história da sua vida e as mãos dos passageiros do voo para Bishkek contam a vida difícil que têm em Moscovo.
A salva de palmas que foi ouvida no avião quando aterrei é demonstrativa da ânsia da chegada ao país natal, tendo visto muitas pessoas, minutos antes da chegada, pentearem-se, vestirem uma camisa e a darem brilho aos sapatos. Não me ri desta situação porque há muito pouco tempo foram os portugueses  a fazer isto, e hoje voltamos a emigrar em massa para resolvermos a nossa vida.
O Quirguizistão é umas das antigas repúblicas soviéticas mais desconhecidas das pessoas. Maioritariamente constituída por montanhas, que acedem aos Himalaias, sendo o país no mundo que está mais distante do mar, tem nas nascentes das montanhas que desaguam nos dois grandes lagos os seus recursos hídricos e energéticos. 
Foi notícia entre 2005 e 2010 pelas tensões e confrontos entre etnias que acabaram em confrontos armados entre elas, mas atualmente tem sido governado por um governo de unidade nacional que tem garantido a estabilidade política necessária para o país ir avançando

Esta situação, aliada a baixos salários, faz com que o Quirguizistão seja um país de emigrantes, quase todos para a Rússia e para o Cazaquistão, fazendo companhia ao batalhão de emigrantes do Turquemenistão e, principalmente, do Tadjiquistão. Economicamente débil, o país importa quase tudo. Os seus supermercados são uma cópia perfeita dos supermercados russos, desde as bebidas, laticínios, fruta, artigos de limpeza, entre outras coisas, também importam a televisão por cabo que é russa, os bancos são russos, a empresa que comprou as reservas de gás é a russa Gazprom.

No Quirguizistão quase não existem stands automóveis, sendo quase todos os veículos importados da Alemanha, Rússia ou Japão, sendo normal encontrar um Honda ou um Toyota com o dístico de Tóquio no vidro, e também não existe McDonald’s ou Burguer King ou lojas da Zara ou da Mango já que o pouco poder económico das pessoas não torna atrativo a estas cadeias abrirem aqui lojas, sendo a roupa quase toda importada a partir da China e pelo que me apercebi nas lojas quase sempre imitações das marcas originais.

Politicamente o Quirguizistão conseguiu quase o impossível albergando bases aéreas dos Estados Unidos e da Rússia no seu território e devido às suas fronteiras com China, Cazaquistão, Uzbequistão e Tadjiquistão o governo pretende ser um local preferencial para escalas aéreas naquela zona, atraindo assim algum turismo e visitantes ao país. Para reforçar essa vantagem competitiva foram abolidos a necessidade de vistos para quase todas as nacionalidades.  
A sua paisagem é constituída por vales e por montanhas em zonas muito bem delineadas. Ficam na retina as estradas cobertas de neve que me levam por vales quase intermináveis através das antigas rotas da seda e que me levam a montanhas que me fazem lembrar os Alpes Suíços. 
Se o país já é pouco visitado, então nesta altura ainda menos, mas mesmo assim vou encontrando alguns turistas havendo quase um instantâneo sentimento de proximidade com outros turistas, como quando encontrei um fotógrafo no meio de uma aldeia perto de Tokmok que se encontrava ao serviço da National Geographic.

Bishkek, a sua capital, é uma cidade ao bom velho estilo soviético,altamente geométrica, ruas em perpendiculares, largas, com grandes retas e quase não se precisa de mapa para andar na cidade, bastando conhecer alguns pontos cardeais da cidade para nos orientarmos. 
Em muitos momentos fez-me lembrar Minsk na Bielorússia na forma como foi concebida e se encontra planificada. O parlamento e a bandeira nacional são os marcos terrestres marcantes da cidade  e dividem a cidade a meio.  Apesar de parecer afastada de quase tudo, é normal encontrar lojas de conveniências abertas 24 horas por dia, meios de transporte públicos ininterruptos e fica a ideia de que na cidade todos estavam a partir ou a chegar para algum lado. Gostei dos seus restaurantes, dos seus cafés, dos seus bares, das suas lojas. 
O seu trânsito foi uma das experiências mais radicais que tive, já que devido a um engano da empresa de aluguer deram-me um Mercedez S com 300 cavalos de potência, caixa automática, e do tamanho de um elefante para guiar sobre o gelo. Apenas posso dizer que sobrevivi!
Mas o Quirguizistão é um bom balão de ensaio para algumas das ideias salvadoras que um certo grupo de economistas, políticos e banqueiros portugueses tinham para Portugal, senão vejamos:
1) Os seus salários são baixos, o que deveria representar uma vantagem competitiva.
2) A sua economia é extremamente aberta já que quase tudo o que se vende é referente a empresas estrangeiras estando a produção nacional restrita à água mineral e carne.
3) Existe um Estado muito leve, estando todos os serviços entregues a privados, quase não existindo serviços sociais gratuitos, saúde pública,etc.
4) Existem poucas infraestruturas de transportes públicas quer ao nível rodoviário ou de caminhos-de-ferro. O pais apenas tem algumas estradas nacionais e 2 linhas de comboio sendo o principal meio de transporte entre as cidades grandes (Bishkek e Osh) o avião.
5) As suas permissões em termos de entrada de pessoas e bens no país são quase totais, não existindo barreiras para quase nada.
6) A indústria foi quase abandonada, havendo várias fábricas abandonadas ao longo das suas estradas.
7) Não existem muitos diplomados, sendo quase toda a formação técnica.
8) Existem muitos emigrantes, pessoas que saíram das suas “zonas de conforto” e foram ganhar experiência no estrangeiro.

Então por que é que eles não vivem com um nível de vida igual ao da Suiça? Pois, essa é que é uma resposta difícil de dar.

Mas o que mais me impressionou não foi a sua economia ou as suas paisagens mas a sua conduta religiosa.

O Quirguizistão é um país islâmico, mas quase não nos apercebemos disso. Nas suas ruas não vemos véus, abaias, túnicas, barbas, rezas. Vemos senhoras de saltos altos e mini-sais que entram para bares e bebem álcool, vemos grupos de amigas nos restaurantes a brindarem com vinho ao aniversário de uma delas em restaurantes públicos, vemos casais de adolescentes a namorarem descomplexadamente em plena via pública.
 
Depois de o ano passado ter visitado Istambul e ter ficado abismado com a quantidade de véus e de abaias que lá se viam numa cidade considerada como a “Amesterdão” dos Islâmicos, onde quase tudo era permitido, fiquei maravilhado com o Islamismo civilizado do Quirguizistão .

Sou um europeu, acredito na sociedade europeia e nos seus ideais, e não me peçam para aceitar ou compreender que sociedades em que as mulheres tenham de se esconder dos olhos dos homens, o consumo do álcool seja altamente controlado, a condução de carros seja um privilegio atribuído pelo sexo à nascença, a mutilação genital seja um rito de passagem e a morte de uma mulher seja apenas uma questão de lavar a honra do nome da família. 
Sei que essas sociedades existem, sei que muitas mulheres o fazem porque querem, mas não foi com esses ideais que eu cresci nem nos quais acredito nem os quais abraçarei e permitirei que proliferem na nossa sociedade porque os vejo como um retrocesso civilizacional.
Desculpem, mas não tenho o síndrome da “Culpa por ser europeu branco”.

O Quirguizistão ficou para trás, mas fica o meu respeito e as palavras de incentivo a todos para o visitar.

As areias da Crimeia...

Chego a Simferopol depois de 2 horas de voo de Moscovo.


Há menos de 1 ano este mesmo aeroporto era palco de uma ação militar pelo proclamado Exército de Salvação da Crimeia, sendo o primeiro ponto a ser conquistado. Hoje parece que nada se passou, tudo corre com normalidade, muitos taxistas à procura de clientes, pessoas a correr, e os voos para Grozny cancelados a provocarem grande alvoroço.
Não tenho roaming no telemóvel, apesar do wi-fi omnipresente, ainda não consigo fazer chamadas internacionais a partir da Crimeia. 
Nas estradas vemos uma grande quantidade de matrículas ucranianas, outras russas, outras que foram alteradas manualmente para terem a bandeira russa e nas bermas muitos dos vendedores de fruta, mel, vinho e camarões ostentam a bandeira russa. Os nomes já são escritos em russo e engenheiros tiram medidas para melhoramentos nas rodovias. 

No caminho para Sevastopol deparo com uma região de vales agradáveis com plantação de vinhas consideráveis, e uma costa marítima muito apetecível para os meses de verão. As vilas por onde passo são saídas diretamente da União Soviética dos anos 70, conservam ainda toda o planeamento e as infraestruturas dessa altura, apenas algumas bombas de gasolina e restaurantes mais recentes alteraram o a paisagem por estas bandas.


Sevastopol.  Uma das principais bases da frota marítima russa está fundeada nesta cidade e nas estradas que nos levam até ela vemos alguns cemitérios de navios de guerra ucranianos, deixados a apodrecer nas margens da baía.
A cidade respira uma aura de verão e militar, com prédios brancos como no Algarve e contingentes de marinheiros fardados em manobras e exercícios pela cidade e a vida aqui corre calma mas com um ritmo constante desde o apressado passo dos condutores ate à elegância das senhoras apressadas que polvilham as ruas com a sua cortante beleza glaciar.
O cacilheiro público leva-nos a dar uma volta panorâmica pela baía e dá-me a oportunidade de conhecer os seus subúrbios e parte da frota que se encontra ali ancorada. Muita gente entra, muita gente sai, 5 minutos de espera e voltamos à cidade. 
Os subúrbios não me parecem bem tratados, tal como as ruas adjacentes as ruas principais ao contrário dos monumentos às vitimas da 2* Guerra Mundial. Existem flores e "caras lavadas" neles, sendo uma cidade com medalha de honra de Lenine temos o monumento da chama eterna ladeado por uma guarda de honra desta vez de jovens que ainda aprendem a marchar mas que ambicionam o primor daqueles que se encontram em Moscovo, tenho a sensação que tudo o que os liga à "Mãe Rússia" ganhou novo ânimo e novo carinho, não se nega o passado soviético tal como o passado ucraniano. 
Sou dos poucos estrangeiros que aqui se encontram mas isso não me traz simpatia ou antipatia acrescida, a vida corre normal para mim.


Simferopol, o epicentro. Aqui foi onde tudo começou e a vida corre normal. A cidade é típica do período estalinista, geométrica, neoclássica, espaçosa fazendo-me lembrar Minsk em muitos aspetos. Mais uma vez os seus subúrbios parecem descuidados. 
Facilmente chego à praça central da cidade. Uma imponente estátua de Lenine encontra-se no seu meio tendo sido das poucas que resistiram à decapitação de outras noutras cidades por toda a Ucrânia aquando da Revolução de Novembro.
Na praça onde há meses milhares arrancavam a bandeira da Ucrânia e hasteavam a bandeira russa sobre o olhar preocupado de toda a Europa, hoje uma carrinha anuncia novas atrações do jardim zoológico. Pelas ruas pedonais que lhe estão subjacentes existe uma calma, um ritmo de vida calmo que não via há muito tempo.
Chego facilmente ao parlamento da Crimeia, onde duas vistosas bandeiras ondulam ao vento e onde alguns turistas da região aproveitam para tirar uma fotografia ao lado dela. Mesmo na sua frente a catedral ortodoxa de Simferopol está em obras de reconstrução profundas e o meu reduzido russo permite perceber que as obras têm o alto patrocínio de Vladimir Putin. Percorrendo mais uns metros pelas ruas carregadas de árvores e cafés chegamos à estação dos comboios.
Pelo caminho passo por um McDonalds encerrado, resultados das sanções aplicadas pelo governo central e mais uma estátua de Lenine aqui encontramos, estando as bandeiras dos regimentos soviéticos que aqui combateram hasteadas, mais uma vez o passado não e renegado.  
Chegado ao aeroporto verifico que apenas existem voos para território russo, não existe Kiev, não existe Londres nem Frankfurt mas Moscovo, São Petersburgo, Krasnodar, assim é a politica e as sanções.
Percebo melhor do que nunca o porquê do desejo de reunificação com a Rússia. A Ucrânia não os tratava bem, as cidades parecem paradas no tempo e parecem subdesenvolvidas mesmo para os parâmetros russos, os transportes públicos são velhos e os subúrbios são pobres, as infraestruturas publicas precisam de forte investimento e se esta era uma das mais desenvolvidas regiões da Ucrânia não quero imaginar o que será o resto.
A reunificação com a Rússia foi o passaporte desta região para alcançar uma vida melhor, uma reunificação com as suas raízes que um erro histórico os separou. Não discuto se os meios justificaram os fins, não tento desculpabilizar um ou outro, apenas digo o que vi.


A vida corre normal, a reunificação está feita.