terça-feira, 10 de março de 2015

A visita do Sr. Presidente!

Sinceramente, numa pequena vontade de escrever sobre a visita do nosso PR ao concelho de Esposende  (perdoem-me o não uso daquelas expressões Sua Excelência e demais cerimónias), a verdade é que pouco ou nada haverá a dizer. Atalhando caminho diria que a visita do PR se resumiu a veio e foi-se!

Reza a lenda que Jorge Sampaio esteve em Esposende enquanto PR, na Quinta da Barca, numa visita "à porta fechada" e talvez por isso Aníbal Silva tenha também pautado o programa das festas pelo registo "ao adro fechado".

Chega a ser triste, deprimente mesmo, que o Presidente da República venha ao concelho fazer aquela visita de fugida! Se tempo teve em campanha para gastar em Esposende... ridículo é que não tenha visitado mais numa visita de Estado. 

A vista do PR teve tanto de notório que chega a ser necessário agradecer àqueles "pobres depenados pelo BES" o facto de terem acompanhado a visita - não fosse o aparato deles e teria sido um passeio mudo de uma visita fantasma.

Sinceramente não me dignei a vestir o "casaquinho mirone" para ir a Mar. Gosto de Mar, do S. Bartolomeu, do banho santo. Parte da minha infância passou também por aquela praia, "afogando iscas e perdendos anzóis" à pesca na companhia do Tio Serafim, (tio da minha mãe). Mas deslocar-me a Mar, para ver uma tenda que não cheira a frango como as tradicionais de 24 de Agosto com tabuletas Cachadinha e assistir ao inglório feito de ver um PR inaugurar um adro cujo maior valor da obra em si talvez não seja o betão que deixou mas sim o cimento e blocos que dali saíram... para isso não tenho "pachôrra"! 

E feito este breve apontamento fico a torcer por algo tão simples que seja: que um Presidente da República visite Esposende.

quarta-feira, 4 de março de 2015

Penafiel 1 - 0 Esposende

Era uma vez uma autarquia, chamada Penafiel, cujo presidente da Câmara chegou ao limite de mandatos. Na eleição seguinte, em 2013, candidatou-se o seu número 2, que venceu. 
Se trocar o nome de "Penafiel" por "Esposende", a história permanece verdadeira. 
No entanto, invoco propositadamente o caso de Penafiel, porque ontem Paulo Portas, vice-primeiro-ministro, esteve naquela cidade a presidir à assinatura de contratos de concessão de apoio ao investimento, celebrados entre a autarquia penafidelense e 9 empresas, que vão investir 10 milhões de euros em Penafiel, criando 150 novos postos de trabalho
Esses contratos inserem-se no Plano Municipal de Atração de Investimento da autarquia, o qual foi apresentado no final do ano passado.
O novo presidente da Câmara de Penafiel, que nos 4 anos anteriores tinha sido aí vereador, não demorou muito tempo para que fosse elaborado um plano de atração de empresas e criação de emprego no seu concelho. 
Não teve, propriamente, que gastar tempo a conhecer os cantos à casa, nem a estudar os dossiers, para que, um ano depois de ter sido eleito, conhecesse forma o referido plano de atração de investimento.
Em semana de visita presidencial, permitam-me a honestidade: preferia que Esposende viesse antes a ser destaque noticioso pela visita do vice-primeiro-ministro a presidir à assinatura de contratos de investimento para o concelho, do que pela visita de Cavaco Silva para inaugurar a requalificação da frente marítima de S. Bartolomeu do Mar (obra importante, sem dúvida, mas que é mais do mesmo que vem sido feito pela Câmara, em termos de obras, ao longo dos últimos anos).
Bem sei que não é fácil a Esposende tornar-se uma silicon valley nortenha, nem tem de ser esse o fim. Mas nesta fase, seria importante que a ambição do concelho em ganhar o futuro fosse para além das intervenções em equipamentos e infra-estruturas. Um Plano de Investimento, como em Penafiel, ou um Plano Estratégico, como em Braga. A semântica pode mudar mas a base é a mesma. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Esposendenses pelo Mundo (6)

José Augusto Capitão, 32 anos, natural das Marinhas, é gestor e reside em São Paulo, Brasil, onde trabalha.

Imagem: José Augusto Capitão, Brasil

Na cidade mais populosa do Brasil e centro financeiro da América Latina, fomos ao encontro deste jovem esposendense para conhecer um pouco da sua história e das suas impressões sobre o Brasil e Portugal, nunca esquecendo, claro está, a terra que o viu nascer e crescer.

José, há quanto tempo vives no Brasil?

Cheguei a São Paulo dia 1 de Fevereiro de 2012 para aquela que seria uma experiência pontual de 3 meses, auxiliando a empresa onde ainda hoje trabalho no seu projecto de expansão no mercado brasileiro. Algumas semanas mais tarde, surgiu a possibilidade de ficar por um período mais alargado.

Como é que foi o impacto de teres passado a residir numa cidade cuja população é maior do que o total de pessoas que habitam Portugal?

Saí de Esposende com 18 anos rumo à Invicta - o meu percurso académico desenrolou-se no Porto. Depois disto, tive ainda a experiência de viver 3 anos em Lisboa por motivos profissionais. Se o ritmo destas cidades é maior que o que temos em Esposende, posso dizer que São Paulo espanta. 
São quase doze milhões de pessoas concentradas numa floresta de cimento, fileiras intermináveis de prédios, um horizonte de betão. Contudo, ao final de algumas semanas, acabas por estabelecer as tuas rotinas, os teus sítios, reencontras a normalidade.  
A dimensão da cidade e a sua diversidade oferecem-nos a possibilidade de encontrar novos cantinhos a cada semana, o que é muito interessante.

Ao cabo dos primeiros meses a viver em São Paulo, qual foi o acontecimento que te surpreendeu pela positiva e de que não estavas à espera e, inversamente, qual foi a boa expectativa que levavas para lá e que, afinal, veio a revelar-se uma desilusão?

São Paulo está bastante distante do paradigma brasileiro que incorporamos em Portugal - não é uma cidade de praia, não há o famoso “calçadão”, nem as paisagens que caracterizam os conhecidos bilhetes postais.
A maior surpresa talvez tenha sido a pluralidade de oferta que podemos encontrar na cidade. Fruto de diferentes fluxos migratórios, São Paulo apresenta uma diversidade rara na oferta cultural e gastronómica que, não tenho dúvidas, compete com as cidades mais cosmopolitas. 
A malha humana é diversa: emigrantes e descendentes portugueses, alemães, italianos, japoneses, libaneses (diz-se que há mais libaneses em São Paulo do que no Líbano!) e também brasileiros, de diferentes estados, que migram para Sampa em busca de novas oportunidades profissionais. Muitas tonalidades que enriquecem muito a cidade.
Como desilusões, aponto duas: trânsito e poluição. Ainda que seja uma mensagem comum sobre a cidade, só vivendo cá conseguimos constatar a dimensão destes fenómenos. 
O trânsito é constante praticamente 24 horas por dia, nos 7 dias da semana.  A poluição está bem evidente no estado lastimável dos rios, no lixo que, não raras vezes, vemos acumulados nas ruas e na qualidade do ar, que em dias mais quentes se torna sufocante.
Naturalmente que o choque com a realidade e com a magnitude das favelas também tem de ser registado: é desoladora a sua dimensão, é desoladora a quantidade de pessoas que vivem em condições precárias.

É conhecido o jargão de brasileiros e portugueses serem um povo irmão. Existe uma forte comunidade portuguesa em São Paulo. Como é que é ser-se português no Brasil?

Para além da grande comunidade portuguesa em São Paulo, que reúne agora elementos de duas grandes vagas de emigração, é também muito frequente encontrarmos descendentes de portugueses: brasileiros cujos pais, avós ou bisavós vieram da “terrinha” (como costumam apelidar Portugal) à procura de melhores oportunidades no Brasil.
Para nós a adaptação é bastante fácil: falamos a mesma língua, há traços culturais e históricos que são comuns e inegáveis, conhecemos os craques da bola, ouvimos a música e até as telenovelas da Globo dão uma pequena ajuda! É fácil sentirmo-nos em casa no Brasil!
Os brasileiros são um povo acolhedor, alegre, com o qual é fácil conviver e interagir. O tempo também nos ajuda a perceber que existem muitas diferenças, à primeira-vista imperceptíveis, e com as quais aprendemos a conviver.
De uma forma geral sinto-me muito bem recebido pelos brasileiros e completamente adaptado ao país e à cultura. Acredito que este sentimento se estende à maior parte dos portugueses que cá vivem.

Conta-nos um pouco da tua actividade profissional aí em São Paulo, na GRENKE Leasing.

Actualmente a minha posição é de Managing Director na GRENKE Brasil. Desde o primeiro dia que o nosso projeto no Brasil se tem pautado por grandes desafios. 
Na Europa, e em particular em Portugal, criamos nos últimos anos a ilusão de que o Brasil é a terra de todas as oportunidades, não só para as empresas, como também para os jovens europeus, e, sendo verdade que as oportunidade aqui são grandes, não é menos verdade que as dificuldades em alcançar o sucesso são também evidentes.
O país tem graves problemas estruturais - níveis de corrupção absurdos em todas as áreas da sociedade, um sistema educativo precário com pouca qualidade (que dificulta a contratação de recursos qualificados), grande atraso nas infra-estruturas e transportes públicos.
A GRENKE, enquanto empresa de origem alemã, trouxe para o Brasil os mesmos pressupostos de simplicidade nos processos que aplicamos na Europa, e isso expôs-nos a dificuldades que não são comuns nos outros países em que trabalhamos. 
Vivenciamos um grande processo de aprendizagem e de adaptação, processo esse fundamental para que hoje possamos encarar o futuro com grande optimismo. Estamos agora mais próximos da realidade do país em que trabalhamos.
A Europa, apesar da diversidade dos países que a compõem, acaba por ser muito homogénea. O Brasil, pelas suas condições naturais, sociais, económicas e por estar num patamar de desenvolvimento inferior tem-nos proporcionado desafios muito estimulantes, que têm exigido o melhor de toda a equipa. Assim, posso afirmar que a experiência profissional e as possibilidades de aprendizagem têm excedido largamente as minhas expectativas.
Como a operação comercial da empresa chega já hoje a vários estados brasileiros, a minha actividade profissional permite-me ter contacto com diferentes realidades, o que se torna esta experiência ainda mais enriquecedora.

As expectativas nos próximos anos passam por continuar no Brasil ou o regresso a “casa” está no horizonte?

Voltar a casa é um objectivo que eu e a minha esposa esperamos concretizar até ao final deste ano. 
Reconhecemos estes últimos anos como uma fantástica experiência principalmente pela  possibilidade de viajar e conhecer diferente contextos no Brasil e na América Latina, conhecer culturas diferentes, experienciar situações às quais, normalmente, não estamos expostos em Portugal. 
Porém, o propósito da nossa estadia no Brasil sempre foi temporário. Estabelecemos como meta permanecer em São Paulo por 4 anos, o período temporal que, no nosso entender, reunia da melhor forma os proveitos pessoais e profissionais: permitiria contribuir de forma efectiva para o arranque e consolidação da empresa no Brasil e também nos daria a oportunidade de viajar e de conhecer um pouco melhor a América Latina.
É também um objectivo nosso, um dia, criarmos os nossos filhos no nosso país, perto dos nossos pais e dos nossos amigos.
Regressaremos, certamente, muitas vezes ao Brasil, mas Portugal é a nossa casa.

No final do ano passado ocorreram as eleições presidenciais no Brasil. Acompanhaste de perto a campanha? Houve algum candidato cujo slogan te tenha feito rir?

Obriguei-me a acompanhar a campanha eleitoral, pois os três principais candidatos - Dilma Roussef, Aécio Neves e Marina Silva - tinham propostas muito diferentes para o país, que influenciavam fortemente o quotidiano de quem cá vive. 
Entendo quando perguntas pelo “slogan que faz rir” e, na verdade, não posso esconder que por várias vezes soltei gargalhadas. No entanto, este humor ignorante ou inocente é sintomático da falta de preparação demonstrada por candidatos à presidência da república de uma das economias de quem mais se espera no mundo, nos próximos anos.

Um dos aspectos mais comentados na campanha prendeu-se com o desaceleramento da economia brasileira. Como agente económico, é assunto para ocupar a agenda mas não preocupar, ou já se está, realmente, na fase de alerta laranja?

Desde que o poder está entregue ao PT, primeiro com os dois mandatos do presidente Lula da Silva e agora com a presidente Dilma Roussef a iniciar o segundo mandato, falta um norte à política económica do país. 
Os mandatos do presidente Fernando Henrique Cardoso trouxeram inicialmente estabilidade e, posteriormente, um interessante dinamismo à economia que forma depois complementados pelas políticas sociais do presidente Lula da Silva. Hoje sente-se uma falha na definição de uma estratégia sustentada de desenvolvimento para o país.
Nos últimos anos o crescimento do país assentou quase exclusivamente no consumo com transferências de rendimentos, através de programas sociias como o “Bolsa Família” e o “Minha Casa, Minha Vida” a levarem poder de compra aos mais desfavorecidos. 
Um país que tem uma das taxas de juro mais elevadas do mundo, que vive constantemente com o fantasma da inflação e que tem grandes desafios estruturais precisa de encontrar modelos de desenvolvimento que lhe permita atingir o potencial que o mundo lhe reconhece. 
A situação actual é de grande desconfiança nos actuais governantes (muito ligados a grandes escândalos de corrupção) e nas suas políticas. Muitas empresas diminuíram a exposição ao mercado Brasileiro e a procuram oportunidades noutros países. 
Esta encruzilhada em que o país se encontra justifica o pessimismo com que os analistas vaticinam os próximos anos da economia brasileira.

Como é que definirias o típico «paulistano», desde o colega de trabalho, passando pela pessoa que te atende num café ou serviço público?

Os paulistas, tal como os brasileiros em geral, são pessoas bem dispostas, alegres ,que valorizam o convívio e o chopp no final de um dia de trabalho. 
Como São Paulo é um centro económico, não só do Brasil, como de toda a América do Sul, nota-se um ritmo de vida mais intenso comparativamente à generalidade de outras cidades brasileiras. 
O padrão de vida aqui é mais próximo dos padrões europeus e existe uma maior pressão para o sucesso e para o crescimento profissional, o que acaba por ser menos comum noutras regiões do Brasil.

Como é que se ocupam os tempos livres em São Paulo?
(Museu de Arte de São Paulo - foto José Augusto Capitão)

Apesar de as praias mais próximas distarem não mais que 80 km da capital paulistana é muito difícil viajar para um fim-de-semana na praia. 
Não é raro ouvirmos relatos ou experienciarmos viagens de ida de 4 horas à sexta-feira e outras tantas horas para o regresso ao domingo. Tenho presente um colega português que, certo dia, na véspera de um fim-de-semana prolongado, demorou mais de 8 horas a percorrer estes 80 km. Isto justifica-se pelo intenso fluxo de pessoas que procuram sair da cidade sempre que surge uma oportunidade.
Curiosamente é nestas alturas que a cidade se apresenta mais agradável. Há uma grande oferta cultural com museus, concertos, festivais e teatro. A nível gastronómico a cidade tem uma riqueza ímpar e é possível experimentar comida de qualquer parte do mundo, praticamente 24 horas por dia. Não podemos esquecer os tradicionais botecos onde se partilha cerveja em rodas de samba ou de forró.
Há também uma grande promoção do desporto e actividade física com diversas ruas e avenidas parcialmente fechadas aos fins-de-semana e feriados para que as pessoas possam aproveitar para correr ou andar de bicicleta. 
O Parque Ibirapuera, um emblema da cidade, oferece uma excelente alternativa à praia. Diariamente encontramos famílias a conviver, a praticar desporto ou só a aproveitar o sol, que é uma constante na cidade.

Fizeste parte da Banda de Antas. Como é que vai a música no meio dos afazeres profissionais?

A música sempre teve uma grande influência não só em mim mas em toda a minha família por herança do meu avô materno mas, nesta fase, sou apenas um ávido consumidor!

Já tens algum «time» no Brasil? Já foste ao Morumbi ou ao Arena Corinthians?

Sou um adepto ferrenho do Futebol Clube do Porto, com quase tantas saudades do Estádio do Dragão, como de casa. Não me sobra muito espaço para paixões passageiras por clubes brasileiros. 
Acabo por “torcer” pelos clubes dos amigos que temos cá em São Paulo principalmente pelo Corinthians e pelo São Paulo. Já estive no Pacaembu (estádio municipal de São Paulo) a ver um Corinthians - Flamengo e, ao ter a oportunidade de acompanhar ao vivo a participação de Portugal na Copa do Mundo, visitei também a Arena Amazónia (Manaus), a Arena Fonte Nova (Salvador) e o Estádio Nacional Mané Garrincha (Brasília).


José, na experiência de quem reside no Brasil há alguns anos e em São Paulo, consegues encontrar uma explicação para Portugal ter tido uma prestação miserável no último Mundial?


Acho que mais do que discutir questões técnicas ou tácticas, que foram muito esmiuçadas por “especialistas” durante e após o campeonato, importa-me destacar a grande oportunidade perdida para interagir com a comunidade portuguesa que aqui se encontra e também com o povo brasileiro que, na sua maioria, demonstrou um grande carinho pela nossa selecção e que, em alguns casos, até a adoptou como “segunda equipa”. 
(No Portugal/Gana do Mundial 2014 - foto José Augusto Capitão)

Países como a Holanda e a Alemanha criaram uma dinâmica fantástica com as cidades e com as comunidades por onde passavam, enquanto que Portugal permaneceu isolado em hotéis e centros de estágio
Considerando a grande afinidade entre os dois países acaba por ficar alguma mágoa, mais pela oportunidade desperdiçada de nos envolvermos no espírito do campeonato do que pela pobreza do resultado desportivo obtido.

Quais são as principais diferenças que notas entre Portugal e o Brasil?

As diferenças entre os dois países ficam bem expressas nos estilos musicais que cada país adoptou: se Portugal é Fado, o Brasil é Samba. 
As pessoas cá são mais alegres, mais extrovertidas apesar de, na minha opinião, as relações inter-pessoais serem menos estruturadas e menos honestas. 
Em termos de qualidade de vida e, apesar da incrível beleza e diversidade natural que encontramos no Brasil, não tenho dúvidas que Portugal está muitos degraus acima. O nível de conforto e de qualidade que um português de classe média tem acesso, é ainda uma miragem no Brasil.

Que visão têm os brasileiros sobre Portugal e os portugueses?

Do meu ponto de vista não podemos falar em uma, mas sim duas visões: há uma grande percentagem de brasileiros que ainda associa Portugal à “terrinha”, às senhoras com bigode, um país pequeno e pobre, perdido em tristezas.
Depois há um grupo crescente de pessoas que conhece melhor o país e que se encanta com a simpatia das gentes, com a riqueza das tradições e com a nossa história. Acho que esta também é uma consequência da grande evolução que Portugal sofreu nos últimos nos últimos 30 anos - mesmo para a nossa geração, o país de que os nossos avós ou país nos falam está muito distante daquele que nós conhecemos. 
É, portanto, natural que os estrangeiros que conheceram Portugal há 3 ou 4 décadas ou que conheceram os emigrantes desse tempo tenham uma visão completamente desfasada do que o nosso país oferece hoje. 
Sempre que posso promovo o nosso país junto dos nossos amigos brasileiros e é com satisfação que vejo que, aqueles que tiveram oportunidade de o visitar, falam de Portugal com muita admiração e muito carinho. 
Mesmo a crise de que tanto nos queixamos é para os brasileiros quase um motivo de troça: amigos brasileiros que voltam de visitas a Portugal repetem exaustivamente que importavam, com muito agrado, a crise de Portugal para o Brasil.

Como é que se olha para Esposende a partir de São Paulo? 

O Miguel Esteves Cardoso escreveu, creio que no Público, há uns anos atrás um texto a que chamou “Desculpa lá dizer-te isto, Portugal, mas amar-te é coisa simples” com o qual me identifico muito e que creio que responde a esta pergunta de uma forma que as minhas palavras não conseguiriam. 
Sou orgulhosamente de Rio de Moinhos, Marinhas, Esposende, apesar de nos últimos anos (e muito provavelmente também em muitos dos próximos) me ter tornado mais um visitante e menos um morador. 
Estando fora do nosso país, longe dos nossos sítios e das nossas pessoas acabamos por aprender a valorizar mais o que realmente importa e, não tenho dúvidas, que do Brasil levamos também uma nova forma de gostar da nossa casa.

À sua escala, que prática (s)/medida (s) de bom que encontras em São Paulo, com base nos lugares onde viveste e que achas que poderia muito bem vir a ser aplicada em Esposende, à sua dimensão?

Sem dúvida que as happy-hours! É prática habitual entre os paulistanos juntarem-se ao final de do dia para beberem umas cervejas e conviverem com os colegas de trabalho ou com os amigos. 
Um hábito de convívio social muito mais intenso do que o existente Portugal e transversal a todas as idades. 
Naturalmente que essa prática é potenciada pelo bom tempo que se faz sentir praticamente durante todo o ano, mas sabemos que também é um hábito frequente noutros países europeus.

Sendo o Brasil um autêntico continente, que destinos fantásticos é que já tiveste oportunidade de aí conhecer?

Já visitamos o Rio de Janeiro várias vezes e é uma cidade que adoramos! 
(No mítico carnaval do Rio de Janeiro - foto José Augusto Capitão)

(Passagem de ano do Rio de Janeiro - foto José Augusto Capitão)

Destacaria também Florianópolis, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Manaus (a experiência de visitar a Amazónia é fantástica e inesquecível), São Salvador da Bahia… Planeámos ainda algumas viagens para este último ano no Brasil!
Há um destino que nos apaixonou e que fazemos questão de apresentar a quem nos visita: Paraty, uma pequena cidade que fica a meio caminho entre São Paulo e o Rio de Janeiro e que foi um dos principais portos exportadores de ouro do Brasil para Portugal. 
Ainda hoje, as ruas e as casas do centro histórico conservam a pedra original da sua construção trazida de Portugal. Trata-se de uma cidade pequena, isolada, com uma excelente oferta de restaurantes e pousadas e uma beleza natural incrível: são mais de 50 ilhas, dezenas de praias só acessíveis por trilhas ou barco, cachoeiras de uma beleza ímpar. É possível mergulhar com peixes, com golfinhos e com tartarugas. Fica perto de Ilha Grande e Angra dos Reis que são também destinos fantásticos, sendo esta uma área geográfica que reúne muito do melhor que o Brasil tem para oferecer.

Ao voltar a Esposende qual é aquele lugar a que apetece sempre voltar?

Gosto muito da marginal de Esposende, das recordações de infância que a praia de Rio de Moinhos me traz, mas subir ao monte da Senhora da Paz e ouvir um pouco desse silêncio e dessa tranquilidade é, sem dúvida, um dos momentos mais felizes de qualquer visita a Esposende!

Gostava de finalizar parabenizando-te por esta iniciativa de dar voz aos Esposendenses que se encontram espalhados pelo Mundo e deixar votos de que o meu testemunho permita, a quem o ler, conhecer um pouco melhor São Paulo e também o Brasil.

Esposendenses pelo Mundo” é uma rubrica que pretende dar a conhecer os “esposendenses” espalhados pelos 4 cantos do mundo, partilhando as suas impressões sobre os novos lugares que habitam, os povos e culturas com quem convivem, e o seu olhar sobre a terra que os viu nascer e crescer.
Se conheces algum “esposendense” espalhado pelo mundo, ou se és tu próprio um “esposendense” espalhado pelo mundo, e gostasses de ver a sua/tua história aqui partilhada, escreve para largodospeixinhos@gmail.com, com indicação do nome, país e contacto de e-mail ou FB. 

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Contas à moda de Esposende*

No passado dia 13 de Fevereiro, o Presidente da República levou a cabo uma homenagem ao poder local, condecorando 15 antigos autarcas, atento o importante contributo que as câmaras municipais deram para o desenvolvimento do país em 40 anos de democracia.
Entre os autarcas homenageados, destacou-se o antigo presidente da câmara de Murça, João Teixeira, uma vez que no próprio dia em que foi condecorado por Cavaco Silva, o Tribunal de Contas publicou a decisão de não homologação das contas daquele município, referentes aos anos de 2008, 2009 e 2010, por violação dos limites de endividamento líquido e de médio e longo prazo.
É célebre a resposta de um antigo primeiro-ministro sobre as dívidas dos Estados serem por definição eternas, pelo que, pagar a dívida é ideia de criança.
Muitos autarcas levaram à letra essa noção de gestão económica, tornando-se “craques” no depauperamento dos cofres das suas autarquias.
Nos últimos anos, foram vários os casos de candidatos autárquicos que viram a sua candidatura ser retirada, pelo respetivo partido, com base na sua acusação, pronúncia ou condenação judicial por crimes graves, como a corrupção.
Infelizmente, continua a faltar a tal crivo ético dos partidos, na seleção dos seus candidatos, a avaliação, nos aspetos a ponderar, do historial de boa gestão dos dinheiros públicos. Um político que não soube gerir os cofres públicos não pode candidatar-se a cargos que implicam a gestão dos dinheiros dos contribuintes.
Uma vez, numa aula de direito administrativo, contava o Professor que no dia em que o governo e as câmaras indicassem nas obras executadas, para além do valor orçamentado e o prazo de duração, o montante efetivamente gasto e o tempo decorrido para a concretização dos trabalhos, tal levaria a uma maior transparência no exercício dos cargos públicos e responsabilização dos seus titulares. Quem sabe se nos próximos 40 anos de democracia tal aspiração não venha a ser uma realidade…
Como esposendense, é com orgulho que vejo o meu Município surgir bem posicionado sempre que são publicados rankings sobre as Câmaras e os seus endividamentos.
No que toca a poupar nas contas, Esposende tem primado pelo exemplo, constituindo referência para muitos gestores de contas públicas sobre como não viver acima das possibilidades.
Gostaria de ter visto João Cepa ser homenageado pelo Presidente da República, à semelhança do que fez a autarquia esposendense que, muito justamente, condecorou o seu antigo titular. Na ausência do tributo presidencial, fica o reconhecimento, talvez mais importante, dos estudos e relatórios que se debruçam sobre as contas camarárias e onde Esposende não tem ficado nada mal.
No presente ano de 2015, a câmara de Esposende irá promover um desagravamento fiscal junto dos seus munícipes, só possível pela estabilidade da sua situação económico-financeira. O facto de não se remeter uma medida desta natureza apenas para ano de eleições autárquicas merece nota positiva.
Num país em que se cria uma linha de emergência financeira para socorrer municípios que não souberam cuidar bem das suas contas, bancos tornam-se maus e empresas bandeiras do país sofrem um enorme rombo, as contas à moda de Esposende parecem ser uma espécie de exceção que confirma a regra. Quem sabe se nos próximos 40 anos de democracia, a exceção não vira regra…

*Publicado no Jornal Notícias de Esposende, n.º 7/2015 - 21 a 27/Fevereiro

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Esposende e a Universidade do Norte

O concelho de Esposende vive uma situação geográfica ingrata. 
Pertencendo ao distrito de Braga, e vivendo afastado do seu centro, vive encurralado entre os distritos do Porto e Viana do Castelo, o que não lhe permite aceder a nenhuma das vantagens de ser vizinho destes.

A notícia da criação da Universidade do Norte, composta pela Universidade do Minho, Porto e Trás-os-Montes deve colocar os responsáveis pela área da educação do nosso concelho de aviso e atentos a novas oportunidades.

Inicialmente, a Universidade do Norte apenas serve para as 3 universidades ganharem peso em concursos a fundos públicos e em concursos de projetos de nível internacional, mas numa 2ª fase  pode-se pensar numa unificação de cursos, candidaturas dos alunos, ou seja, numa fusão mais alargada sendo que cada uma das instalações das universidades existentes funcionariam como “pólos” da nova universidade.
Num concelho que ainda não conseguiu atrair nenhuma escola superior, pólo, centro de estudos ou delegação das instituições de ensino superior dos seus concelhos vizinhos, a Universidade do Norte deve ser  uma forte aposta das nossas instituições locais, através do melhoramento de relações com o Instituto Politécnico do Cávado e o Instituto Politécnico de Viana do Castelo. Se com esta nova instituição não conseguirmos atrair para o nosso concelho este tipo de atividades, não sei como o faremos..
Claro que não sou ingénuo ao ponto de pensar que esta nova instituição nasce limpa e pura. Nasce com bases e vícios daquelas que lhe deram origem e que nos têm atirado para um exílio académico, mas também sei que estará mais pressionada para dar visibilidade às regiões que lhe dão origem e que nós pertencemos ao Minho, por muito que isso algumas vezes seja visto como um facto peculiar, e isso será um trunfo e um argumento que poderá ser utilizado.
Sabemos que nos últimos anos a presença do Instituto do Cávado e de Viana do Castelo no nosso concelho apenas se resume a umas campanhas publicitárias de distribuição de panfletos no verão e isso parece-me francamente pouco e por mais que me queiram explicar não consigo perceber por que é que continuamos a viver fora do mapa do ensino superior quando todos os nossos vizinhos já fazem parte dele.

Olhando para os casos de Braga, Viana do Castelo e Barcelos verificamos que a chegada de estudantes fez com que as cidades se dinamizassem, se alterassem e que ganhassem vida nas alturas mortas do calendário.
Melhor caso do que todos estes é o caso de Bragança e do seu instituto politécnico, que no ano lectivo corrente conta com cerca de 1200 estudantes estrangeiros, 400 dos quais a morar em Bragança, uma verdadeira legião estrangeira que trouxe ainda mais vida a Bragança.

sábado, 31 de janeiro de 2015

Quotas leiteiras em Esposende

O mês de Março aproxima-se e uma revolução silenciosa está iminente na indústria agrícola. Falo do fim das quota leiteiras a nível europeu.

As quotas leiteiras impostas pela União Europeia serviram para moderar a produção de leite em cada um dos países, para que todos os intervenientes de cada país da indústria leiteira, dos produtores às empresas transformadoras, não sofressem o ataque dos seus congéneres europeus, visto que as disparidades na produção eram gritantes.  

Quando um país ultrapassava a sua quota era multado e isso refletia-se nos seus produtores, o que serviu para salvaguardar a indústria leiteira portuguesa, entre outras, de serem engolidas por potentados como Bélgica, Holanda, Alemanha, Polónia, Itália ou por outros.

Portugal, tendo sido um país de agricultores, não foi um país de agricultura e esses números na indústria leiteira são muito evidentes já que olhando para a quantidade de leite de vaca recolhido Portugal fica em 15º lugar na Europa dos 28, ficando atrás de países como Bélgica e República Checa,  e estando ao mesmo nível de Hungria e Lituânia. Em termos de preço pago ao produtor, Portugal situa-se na média europeia mas os custos de produção são mais elevados que a média europeia, logo o ganho efetivo tende  a ser mais baixo que a média europeia.
O grande fator para isto, na minha opinião, é o ordenamento do território agrícola.  Os nossos terrenos são demasiado dividos, onde na Polónia está 1 terreno em Portugal nessa mesma área estão 10, onde na Polónia apenas 1 trator é necessário para trabalhar o terreno em Portugal existem 10, onde na Polónia existe apenas 1 agricultor em Portugal existem 10 para dividir o lucro do que sai do terreno.  Além desta parcelização do terreno existem fatores naturais, como a quase inexistência de grandes extensões de terrenos que permitam aos animais de alimentarem apenas de erva que cresce por natureza, ou seja, enquanto o agricultor na Polónia precisa, valor imaginário, de 1 € para alimentar os seus animais o agricultor em Portugal precisa de 4€.

Ainda a prejudicar mais o panorama, o nosso mercado nacional está muito orientado para artigos de longa-duração,de prazos de validade elevados como o leite UHT,queijo flamengo e iogurtes líquidos, o que permite a fornecedores na Polónia enviar os seus produtos para Portugal sem que ele se estrague. No caso do Reino Unido, por exemplo, o leite “fresco” domina o mercado e tendo um prazo de validade de 4 dia faz com que se o produto sair da Polónia na segunda-feira só está nas prateleiras na quarta-feira e quinta já acabou a validade, logo pouco interessante para o consumidor
As culpas, na minha opinião, para este panorama a nível português são para todos os intervenientes na agricultura, desde o Governo às empresas de transformação, passando por Cooperativas, produtores, retalhistas, grossistas, comerciantes, mas não posso realçar que se hoje estamos neste ponto, muito o devemos a António Barreto e à sua “Lei Barreto” que ao renegar a coletivização dos terrenos no Alentejo e no Ribatejo matou à nascença uma agricultura de escala e deu o mote para a tribalização dos nossos terrenos e dos nossos recursos.  Em 20 anos Portugal perdeu 90% dos seus produtores de leite, mas aumentou a sua produção, porque quem trabalha faz-lo em maior escala. Poderíamos ter feito este percurso à 40 e hoje estaríamos num outro patamar e isso António Barreto não o pode negar.
Se ele me estiver a ler, daqui lhe digo: Enganou-se, devíamos ter cultivado o Alentejo de cima a baixo sim senhora.

No concelho de Esposende contamos com cerca de 54 produtores de leite, segundo dados da Anabel, não sendo um valor extraordinário  é um valor que já nos coloca à frente de concelhos como Chaves, Viana do Castelo, Braga, Guimarães, Aveiro, Santarém, Vila Nova de Gaia.

Em termos médios, e aqui falo de números aproximados e médios porque o preço da matéria não é constante durante o ano, por isso é natural que não sejam estes os valores de 2014, o concelho de Esposende produziu cerca de 12 milhões de litros de leite, o que pago a cerca de 0,27€ o litro de leite  representou um encaixe de 3 milhões de euros para a economia do concelho. Com o término das quotas e a consequente redução de preço, que ficará na melhor das hipóteses a 0,03€ por litro, isso significa que para este ano a economia do concelho perde cerca de 200 mil euros . Em cenários mais pessimistas poderemos estar a falar de 400 mil euros em perdas. Se existir um abandono mais generalizado dos produtores, os valores ainda serão mais gravosos.
Sem os produtores de leite não existe venda de rações, máquinas, gasóleo, animais, instalações, produtos químicos de limpeza, veterinários, compra de terrenos agrícolas para exploração, etc. É todo um mundo de negócios que desaparece. Isto são mais do que motivos e números para que as nossas autoridades locais, desde a Câmara Municipal, Cooperativa Agrícola , Associações Comerciais, olhem para os produtores de leite e para esta situação com preocupação e com celeridade na resposta. Algo terá de ser feito, desde o aproveitamento do que é aqui produzido até à reformulação da forma como o estamos a produzir e dos custos que isso representa para os agricultores em si.
Desconheço, por ignorância ou por falta de atenção, se existe algum plano de acção, algum acompanhamento desta situação, se alguém já ouviu os agricultores, se já algo foi feito.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Esposendenses pelo Mundo (5)

O «Esposendenses pelo Mundo» regressa, em 2015, com nova série de entrevistas a esposendenses que têm dado cartas pelos quatro cantos do mundo.

Iniciamos hoje a segunda temporada com o Luís Loureiro, 25 anos, natural de Gandra, médico e que reside em Edimburgo, Escócia, onde trabalha.

Na capital mundial do whisky, do monstro de Loch Ness e onde os homens vestem kilts e tocam gaita-de-foles, fomos falar com este jovem esposendense espalhado pelo mundo, e conhecer um pouco da sua história e das suas impressões sobre a Escócia e Portugal, nunca esquecendo, claro está, a terra que o viu nascer e crescer.

Imagem: Luís Loureiro, Escócia

Luís, há quanto tempo vives na Escócia?

Há 6 anos. Estive primeiro em Aberdeen, e no verão passado mudei-me para Edimburgo.

Qual foi a primeira coisa que te impressionou na Escócia ao cabo dos primeiros dias?

O início do meu curso parece um bocado perdido na minha memória não porque tenha sido há muito tempo, mas porque foi mesmo muito atribulado e com muito para fazer!
Mas lembro-me de ficar surpreendido com a cultura do álcool na Escócia. Bebe-se muito e muito rápido. E o que acontece volta para assombrar no Facebook, claro.
Também não esperava ver um país tão polarizado a nível religioso. Em Portugal o catolicismo é tão prevalente que as pessoas não fazem questão de serem obviamente identificadas como católicas, mas como há vários ramos da cristandade bem representados na Escócia, muitos jovens são bastante óbvios quanto a serem protestantes, evangélicos, etc.

Os escoceses são conhecidos por terem uma pronúncia muito cerrada. Deu-te muita luta entranhares o sotaque deles, sobretudo nos primeiros tempos de aulas?

Não propriamente, mas a costa Este tem sotaques muito mais suaves (e estudei no Colégio Inglês no Porto tínhamos professores de várias partes do Reino Unido). Não posso dizer o mesmo dos sotaques da costa Oeste. 
A minha irmã vive em Glasgow e queixa-se de vez em quando do quão difícil é percebê-los.

Antes de Edimburgo, viveste em Aberdeen. Outra cidade muito conhecida em Portugal é Glasgow. São cidades muito diferentes entre si?

Absolutamente. A diferença principal é entre Glasgow e Edimburgo. 
Glasgow era uma das capitais industriais do Reino Unido, e isso nota-se na escala de tudo. O centro é construído em forma de grelha, e por isso tem um ar um bocado americano. Parece uma cidade mais jovem.
Edimburgo é uma cidade muito mais antiga, e está dividida entre Old Town, que é medieval, de ruas tortuosas, e New Town, que é uma área de casas sofisticadas do século XVIII. Faz-me lembrar de partes de Paris, na delicadeza da arquitetura, e também a chamam de a Atenas do Norte pelos edifícios Neo-clássicos.
(St. Marys Cathedral, Edimburgo - foto Luís Loureiro)

Aberdeen é muito mais sombria, e também mais pequena. Quase tudo é construído em granito, e como fica no Mar do Norte é bastante frio e ventoso. Mas a parte antiga da cidade, incluindo a universidade, é lindíssima, com pequenos jardins, capelas e também uma catedral com teto em traves de madeira. O centro é mais genérico. Nota-se o dinheiro que chega à cidade por causa do petróleo, porque há carros desportivos por todo o lado.

Agora em Edimburgo, estás a fazer o internato de primeiro ano, em Urologia. Sendo filho de pais médicos, notas muitas diferenças entre o sistema de saúde escocês e o português?

São sistemas semelhantes, com a salvaguarda que na Escócia acesso a cuidados de saúde e medicamentos são sempre gratuitos (mas pagos por impostos). 
Acho que é razoável dizer que a nível de medicina familiar e de urgências hospitalares, o sistema no Reino Unido está sobre mais pressão do que em Portugal. A consulta média cá demora 10 minutos ou menos, e fala-se de uma crise de serviços de urgência, até com médicos a desistir por stress. Não planeio fazer especialização em urgências!

A Escócia foi protagonista, no ano passado, de um referendo histórico que dividiu paixões no país e, sobretudo, no Reino Unido. Como é que viste a questão da independência e o seu debate e, na tua opinião, a votação final (em que ganhou o «não») é a que serve melhor os interesses dos escoceses?

Esta é uma questão ainda muito controversa por cá, porque o país ficou quase dividido a meio, e não acho que a questão esteja resolvida de todo. 
(Uma manifestação pro-independência - foto Luís Loureiro)

Votei «Sim» à independência porque acho que o sistema político do Reino Unido não só está desligado do tom político na Escócia, como está numa missão para ir na direção oposta. 
Espero que seja possível continuar numa situação em que a Escócia consegue fazer aquilo em que acredita, e o resto do país também, mas depois de ver a paixão e emoção em manifestações em Glasgow no dia antes da votação, tenho as minhas dúvidas que tanta gente vá esquecer isto tão facilmente.

Como é que caracterizas o típico «escocês», desde o colega de trabalho, passando pela pessoa que te atende num café ou serviço público?

Na generalidade, são pessoas com um sentido de praticalidade muito forte. Se algo pode acontecer nos próximos 5 minutos, vai acontecer. 
São pessoas genuinamente simpáticas também, e as gerações mais novas são bastante sociáveis, o que é um pouco diferente do estereótipo dos vizinhos a sul.

Como é que se ocupam os tempos livres na Escócia?

Há imensos castelos, lagos, e montanhas para visitar. 
Para quem gosta de whisky ou de cerveja (morna, chamada ale, e não a cerveja fria, ou lager, que temos em Portugal) há imensos pubs para explorar. 

(Café português em Edimburgo, chamado Casa Amiga - foto Luís Loureiro, segundo o qual «Talvez difícil de ver nesta imagem, mas havia desde Super Bock até café Delta e arroz Cigala»).

Em Edimburgo e Glasgow não há falta de museus e galerias para ir visitar.

Já tiveste oportunidade de assistir a um Celtic x Glasgow Rangers?

Ainda não, e como não sou grande fã de futebol, não me estou a ver a fazê-lo em breve!

Quais são as principais diferenças que notas entre Portugal e a Escócia?

Portugal oferece uma beleza arquitetónica e natural imensa, e tem um clima fenomenal. Mesmo no Inverno o clima permite sempre algum relaxamento. 
A vida na Escócia é muito mais apressada, quase a ponto de parecer haver menos horas no dia. E no Inverno como os dias são muito curtos quase que não se vê o sol. 
Também me parece haver uma cultura de coesão familiar mais forte em Portugal. A Escócia é certamente um país mais afluente, particularmente com o petróleo, mas onde há privação e pobreza esta é um pouco mais marcada porque não há uma rede familiar tão forte para dar ajuda.

Que visão têm os escoceses sobre Portugal e os portugueses?

Para ser perfeitamente honesto, não há uma imagem forte de Portugal por cá
É visto como um destino de férias e a maioria dos Escoceses, certamente, sabe que o clima é bastante agradável. 
Todos os que já visitaram Portugal fazem questão de dizer que adoraram.

Como é que se olha para Esposende a partir da Escócia? 

Quando vivia em Esposende acho que via o sítio como um bocado isolado, pequeno e aborrecido, mas certamente mudei de opinião. Certamente comparada com as cidadezinhas e vilas da Escócia, Esposende tem muito a mostrar
Em quantos sítios se pode olhar para um lado e ver um estuário, o mar do outro lado, e olhando para trás ver uma montanha e floresta? 
Esposende é um sítio genuinamente bonito, e com um ambiente muito relaxado. Sinto que tive sorte em ter crescido aí.

À sua escala, que prática (s)/medida (s) de bom que encontras na Escócia, com base nos lugares onde viveste e que achas que poderia muito bem vir a ser aplicada em Esposende, à sua dimensão?

Na medida de cidades do mesmo tamanho, Esposende tem talvez mais a ensinar a cidades semelhantes na Escócia do que o contrário. 
Acho que é um sítio muito dinâmico e com uma boa agenda cultural para o tamanho que tem. 
A vida noturna e lazer também são melhores do que seria de esperar para uma cidade pequena. A única coisa que faltava mesmo era uma ligação de comboio para o Porto.

A Escócia é um país com paisagens fantásticas e que figura no imaginário de muita gente. Para um Esposendense que planeasse conhecer o país, que lugares é que, na tua opinião, não pode perder?

Edimburgo e Glasgow são os lugares a visitar, sem dúvida, e como ficam a menos de uma hora de distância no comboio, seria uma visita compacta. 
Em Edimburgo, vale a pena visitar o castelo, que tem vistas lindíssimas para a cidade, e também New Town e o West End, pelos restaurantes e pelas lojas. 
O centro de Glasgow tem lojas espetaculares, e a universidade tem museus e edifícios que vale a pena visitar. 
Fora destas duas cidades (a área chamada The Central Belt), recomendava Inverness, que é a capital das Highlands. É uma cidade pequena, mas com muito charme, e fica a meia hora do Loch Ness, que também se deve visitar, não por razões místicas, mas porque é deslumbrante e há um castelo fabuloso na margem.

Luís, uma das tuas paixões é a sétima arte, onde te dedicaste ao ofício de realizador. Agora com a especialidade, ainda sobra tempo para esse hobby ou é actividade adiada mas não esquecida?

Diria que é uma atividade adiada, provavelmente. Não tenho tido tanto tempo, mas continuo a tentar encontrar a inspiração e oportunidade para escrever. Talvez em breve um desses guiões seja para filmar!

Em 2011 tiveste oportunidade de exibir, no Auditório Municipal de Esposende, algumas curtas-metragens tuas, inseridas no âmbito de uma sessão cujas receitas reverteram a favor da Associação de  Amigos dos Doentes com Paramiloidose. Mais do que voltar a exibir em Esposende, está no teu horizonte realizar uma curta-metragem sobre Esposende?

Não sei se seria sobre Esposende, mas em Esposende certamente. Algumas das minhas melhores memórias do últimos anos foram enquanto estive em filmagens por aí. 
Um dos sítios onde já filmei várias vezes é um pedaço de estrada cortada entre Esposende e Fão. É um sítio tão desolado, mas com uma beleza tão estranha. 
Um sítio que gostava de usar num filme é o Castro de São Lourenço. Adoro as ruínas e a vista que se tem sobre Esposende a partir da capela. Usei uma parte muito pequena das ruínas num dos meus filmes mais recentes, mas gostava muito de fazer algo mais elaborado naquele sítio.

Ao voltar a Esposende qual é aquele lugar a que apetece sempre voltar?

Sem querer fazer muita publicidade, tento sempre passar pelo Lótus (sou fã de gin tónico), e também me perco com os bolos e salgadinhos do De Lili. 
A marginal e o Castro de São Lourenço são os meus sítios favoritos para matar algumas saudades do espírito esposendense.


Esposendenses pelo Mundo” é uma rubrica que pretende dar a conhecer os “esposendenses” espalhados pelos 4 cantos do mundo, partilhando as suas impressões sobre os novos lugares que habitam, os povos e culturas com quem convivem, e o seu olhar sobre a terra que os viu nascer e crescer.
Se conheces algum “esposendense” espalhado pelo mundo, ou se és tu próprio um “esposendense” espalhado pelo mundo, e gostasses de ver a sua/tua história aqui partilhada, escreve para largodospeixinhos@gmail.com, com indicação do nome, país e contacto de e-mail ou FB.