quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Basileia, o comprimido artístico

Foi a Seleção Nacional que me trouxe a Basileia, mas já há algum tempo que queria ver esta cidade, que é uma das mais desconhecidas na Suíça, a par de Berna, e não me arrependi.
Antes de mais, é preciso dizer que Basileia tem a população e a área de Braga e a partir deste dado tudo ganha uma grande relevância, porque ficam repetitivas as vezes que se junta as palavras "Basileia", "maior" e "mundial".
Basileia vive nas margens do Reno e é o ponto de convergência de 3 países - Suíça, Alemanha e França -, o que confere um cosmopolitismo engraçado à vida da cidade.

Dentro dela existem estações dos caminho-de-ferro franceses e alemães e existem rotas de elétricos e de autocarros que passam as fronteiras e obrigam a estar de passaporte na mão e que para a mesma linha de autocarro podemos ter de comprar bilhetes em francos suíços ou em euros.

O melhor exemplo disto é o Aeroporto, cujo edifício está divido por 2 países e que além de uma fronteira terrestre entre as lojas recebemos uma mensagem de "bem-vindo à França" sempre que se vai comprar uma garrafa de água no lado francês.
Mas não só de fronteiras se faz Basileia, também de indústria se faz Basileia.
Nesta cidade residem as sedes, centros de investigação e parte das fábricas de 2 das maiores farmacêuticas a nível mundial, a Novartis e a Roche.

Pelos restaurantes mais conceituados da cidade é normal ouvirmos um "inglês americano" e um "inglês suíço" a discutir amostragens, portarias, diretivas europeias, células, compostos e as pequenas empresas que servem de suporte a estes gigantes estão polvilhadas por toda a cidade.

Andando pela cidade fica logo na retina os edifícios que albergam os diversos departamentos destes gigantes. Desde o centro de compactação de comprimidos da Roche, até à biblioteca técnica da  Novartis, temos edifícios modernos, com traço de arquiteto e enquadramento no que os rodeia, mas também fica na retina o saudável vicio de integrar obras de arte nestes mesmos edifícios conferindo um ar menos pesado e mais humano a todas estas áreas.
Falando de edifícios é impossível passar ao lado das sedes destas 2 empresas.
Enquanto o edifício Roche é o mais alto da Suíça e nos fins-de-semana podemos subir ao seu topo e apreciar uma bebida no seu bar que fica no último andar e por si só já é uma obra marcante de arquitetura, o que dizer do campus-sede da Novartis?

O complexo da Novartis que é um espaço de trabalho, conta com edifícios dos mais nomeados arquitetos, Eduardo Souto Moura arquitetou um dos edifícios de suporte e é dos nomes mais modestos aqui presentes, passando por Siza Vieira até ao Fórum de Conferências edificado pelo inevitável Frank Ghery, passando ainda por um edifício de escritórios desenhado pelo gabinete japonês SANNA vencedor de um prémio Pritzker em 2014.  Sendo este um espaço de trabalho é apenas visitável durante o fim-de-semana. 
De finanças também é feito o tecido empresarial de Basileia, estando aqui a sede do banco UBS o que a torna o 2º maior centro financeiro da Suíça a seguir a Zurique, o que não é nada se se deitar fora.

Mas não só de fronteiras e comprimidos se faz Basileia mas também de arte se faz Basileia, e que arte.
Basileia orgulha-se dos seus museus e da sua coleção de arte que foi sendo adquirida inicialmente com o orçamento camarário e prosseguiu com a ajuda das grandes empresas que existem nesta região e que a eleva a poder ombrear com os gigantes de todo o mundo. 

Corre a lenda que Picasso quando soube que a cidade lhe iria comprar 2 quadros com dinheiro público ficou de tal forma comovido que ofereceu mais peças como forma de recompensar os habitantes da cidade e a cidade soube aproveitar este impulso.
O Kunstmuseum é um dos 5 mais importantes museus de arte contemporânea a nível mundial e nele se encontram inúmeros Picassos, Dalis, Monets, Van Goges entre outros, a exposição Art Basel que ocorre anualmente no moderno Centro de Exposições de Basileia é a mais importante feira de arte contemporânea a nível mundial e o Museu Vitra, dedicado ao design de mobiliário, é o mais importante museu de design do mundo no seu género oferecendo toda a interatividade que poderíamos esperar de uma loja do Ikea e isto diz quase tudo sobre o que é investimento em arte.
A vida também corre de forma calma e aprazível em Basileia.
O Reno faz as honras da casa e toda a cidade vive uma engraçada relação com o seu rio.

Ficam na memória os banhistas que às 8 da manhã levam as sua roupa dentro do saco impermeável (o "peixe") e descem o Reno como quem dá a sua corrida matinal na marginal de Esposende e à tarde os jovens que ficam a apanhar sol nas margens do Reno dando ocasionais braçadas rio fora.

As pessoas enchem os pequenos restaurantes que estão na margem do Reno como uma celebração do sol e do bom tempo numa forma muito nórdica e dão todo um ar de estância de férias que é pouco usual na Suíça e daqui também partem os cruzeiros que descem o Reno e que vão até Amesterdão ou à sua foz na Alemanha ou através dos diferentes rios podem chegar mesmo a Odessa na Ucrânia.
Sendo um fã da Suíça sou também um fã do seu modo de vida.
É bom saber que ainda existem países onde os jovens têm filhos e têm bons salários, as pessoas têm hobbies que não sejam apenas desportivos, onde ainda se fuma cachimbo por prazer, onde ainda existe tempo para as pequenas coisas, para os pequenos prazeres e para a família e mesmo assim existe uma economia competitiva e pujante, onde os produtos agrícolas além de nacionais são de elevada qualidade e os consumidores têm poder de compra para ter exigência, onde a escola pública é de qualidade e até contempla aulas de natação obrigatórias. 

É bom saber que ainda existem países onde não é necessário ser-se assexuado, assalariado, acrítico, abstémio para supostamente se ser moderno e competitivo.  
E a Seleção Nacional?
Admito que a derrota foi amarga já que por um lado não jogamos tão mal quanto isso e por outro porque ainda não acabei com a minha maldição de nunca ter visto ao vivo a Seleção a ganhar, mas acima de tudo porque a quantidade de emigrantes que foram ao Saint Jakob foi tal que mereciam um golo para festejar.
Mas sendo este o início da caminhada para o Mundial na Rússia é meu profundo desejo que em 2018 esteja aqui a escrever como foi a final de Moscovo com Portugal...